quinta-feira, 18 de abril de 2013

Il Demonio - 1963

Classificar um filme como obra-prima é sempre algo que exige cuidado, mas no caso desse que relembro  não há nada de audacioso pois  não estou sozinho na afirmativa, compartilhada por inúmeros críticos e blogueiros espalhados por este mundo do cinema. Como seria de se esperar é ainda  inédito no Brasil e raro nos sites de compartilhamento. Foi exibido, é verdade em nossos cinemas na década de sessenta. A obra de Brunello Rondi, fantástico roteirista de  alguns clássicos de Fellini, e dono de uma filmografia pequena como diretor- 10 filmes apenas -, é valiosa  e vem sendo revalorizada. O cinema italiano sempre nos brinda com essas surpresas fantásticas pelas mãos de diretores que tem pouca divulgação por essas bandas.  Um amigo me mostrou faz alguns dias uma longa matéria sobre o cinema italiano em uma das poucas revistas culturais que podemos encontrar nas nossas bancas. Fui lendo, lendo e não vi nada diferente do trivial que qualquer cinéfilo já sabe: neorrealismo, Pasolini, Fellini, Antonioni, Rosselini, e outros nomes batidos e facilmente citados em qualquer história do cinema. Nada de nomes como Dallamano, Bava, Polselli, Cavallone, Martino, ou mesmo um Valério Zurlini, para ficar em nomes que lá fora são conhecidos e citados. Confesso que fiquei irritado: estava diante da velha situação de divulgação do “manjado”, do canônico,  das vacas sagradas, que encontramos em praticamente todas as publicações do país.  Preguiça ou falta de conhecimento? Regurgitar informações batidas, exaltar nomes que já são ícones. O que seria do cinéfilo mais curioso e interessado senão existissem os blogs?  No meu caso particular graças ao saudoso Carlos Reichenbach em seu blog “Olhos Livres”, meu conhecimento do cinema italiano, para além dos manjados, se abriu muito com suas dicas inestimáveis e únicas. Daliah Levi, belíssima atriz israelense, em atuação magnífica interpretando Puri, uma camponesa.  Ainda  que o filme fosse uma bomba, só pela  presença  dela já  valeria assisti-lo, tal a força  e a sensualidade que injeta  de cada fotograma. O cenário é a rústica Lucânia, no Sul da Itália, região de um catolicismo primitivo, quase pagão, que guarda muitas semelhanças com o nosso Nordeste.  Dir-se-ia que a história se passa num espaço atemporal mais próximo de uma  Idade Média. Um dos raros críticos que elogiou o filme na época da estreia classificou-o como a primeira obra surrealista da cinematografia italiana. E de fato quem lembra do documentário  “Las Hurdes” de Buñuel poderá perceber alguns elementos em comum. E mais que isso o surrealismo está presente no espírito e nos temas: amor louco, esoterismo desenfreado, crítica á religião, entre outras coisas.  Temos uma história de amor desesperada e triste: Puri ama loucamente  Antônio, mas não é correspondida e é rejeitada. Aos olhos dos camponeses ela é uma bruxa, responsável pelas desgraças que assolam o povoado, e ela crê que seja o que todos pensam. A sequência  inicial é uma detalhada preparação de um  feitiço  com o qual ela pretende conquistar o amado que está prestes a se casar. “La Fiancée du Pirate” de Nelly Kaplan, paradigma do cinema surrealista, lançado em 1969, e comentado aqui no blog, guarda semelhanças profundas com o filme de Rondi. Em ambos os filmes as heroínas são camponesas que vivem isoladas, estigmatizadas pelos vizinhos primitivos e brutos e tidas como bruxas. Uma declaração interessante de Brunello Rondi ajuda entender o comportamento de Puri:  “Minhas personagens femininas expressam suas neuroses  através do corpo”. Nesse ambiente quase selvagem  onde paganismo e cristianismo se confundem, o grito de revolta de  Puri é narrado de maneira quase documental, seca e áspera. Um detalhe interessante: Rondi trabalhou com Rosselini, pai do neorrealismo. Cenas marcantes: o encontro com um rapazinho à beira de um rio; os camponeses levando as tochas pela aldeia e erguendo uma fogueira, cena que remete aos melhores momentos góticos dos filmes de Mario Bava, realizados na mesma época. De certa forma o que o espectador tem é  um tratamento mais seco da temática dos  filmes góticos em voga naquela época, realizados pelo já citado Bava, e por outros diretores. Destaque-se as sequências do exorcismo de Puri: seguramente William Friedkin e William Peter Blatty, diretor e roteirista de “O Exorcista” respectivamente, viram o filme de Rondi.  Um filme, enfim a ser  redescoberto em nosso país. Para deleite dos interessados existe uma ótima cópia legendada em espanhol no Youtube.

Link:
http://www.youtube.com/watch?v=gPcODyIjKNQ

2 comentários:

Fernando Terroso disse...

Não conhecia esse filme, parece interessante, valeu a dica.

Fernando Fonseca disse...

é uma obra-prima , vai gostar...