chiados e canudos
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Return of the Dragon - 1974
Bruce Lee morreu prematuramente de uma maneira controversa deixando uma legião de imitadores no cinema asiático e
até em países europeus e sul americanos, gerando um subgênero da exploitation, a brucexploitation.
O filipino Ramon Zamora foi um dos muitos que surgiu na cola do dragão chinês
do kung-fu anos 70. Dublê, comediante e ator de renome no país quando decidiu a
se aventurar pelos filmes de artes
marciais. Quando eu era adolescente a febre do kung-fu varria o Brasil e o
mundo. Infelizmente naquela época não pude assistir aos filmes estrelados por
Bruce Lee e tinha que me contentar com a série de TV americana estrelada pelo
Carradine. Ironicamente assisti no
cinema somente a uma das inúmeras imitações, com um lutador de nome Bruce Li. Outra
roubada foi ir ao cinema e para ver um
filme do lutador e dar de cara com uma simples colagem de episódios da série de
TV Besouro Verde, que ele estrelou no papel de Kato, assistente do herói. O
tempo passou e me desinteressei de Bruce Lee e do gênero. Confesso que até hoje
mantenho o desinteresse por ambos, apesar da paixão pelo cinema asiático mais
“weirdo”. Atraem-me somente os filmes de arte marciais insanos, que misturam
terror ou outros gêneros, e os deliberadamente toscos, que não se levam muito a
sério. O filme que relembro tem direção
do venerável Celso Ad.Castillo, um dos gigantes do cinema filipino e asiático
na era de ouro. À vontade em gêneros diversos: drama, terror, artes marciais,
erótico. Pena que boa parte da sua filmografia seja inacessível para nós
ocidentais. Já abordei aqui há algum tempo atrás o cinema filipino, sem dúvida
dos mais interessantes dos anos 60 e 70.
Ilha pequena de cinematografia monumental, e que ainda continua a produzir
filmes com regularidade, apesar da decadência. Ramon Zamora ,como lembrei acima
,era humorista e certamente por isso seus filmes de artes marciais abusavam do
humor. Felizmente não é o caso aqui. O filme se leva a sério, na medida certa,
e não tem enxertos com o humor oriental,
sem dúvida a parte mais chata do cinema daquelas bandas, para atrapalhar. Se
passa ao largo das piadas mequetrefes a violência
mais delirante tem lugar cativo na trama. O herói - de nome Pylon- trucida um
bando inteiro de lutadores, mas também leva surras homéricas, é quase morto,
tem as mãos perfuradas por tiros e estacas, vê sua amada ser estuprada e assassinada,
e parte para uma sanguinolenta vingança. A estética do spaghetti italiano é marcante e
dá um toque especial ao conjunto: a trilha sonora, por exemplo, é claramente
decalcada dos temas de Ennio Morricone. Interessante pensar que o spaghetti bebeu na fonte oriental – os filmes de
samurais, especialmente- e acabaria influenciando os filmes de artes marciais
posteriormente. Para os interessados em
conhecer este precursor dos filmes de Tarantino a boa notícia é que ele tem
completo no Youtube, dublado em inglês.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Schamlos - 1968
Uma raríssima exploitation vinda da Áustria pelas mãos de Eddy
Saller diretor falecido em 2003 que deixou
uma obra pequena de 5 filmes apenas. Se
não foi extensa nem por isso foi menos importante, além de ter nadado contra a
corrente cinematográfica que imperava no país, os dramas agridoces e românticos
(tipo “Sissi”, por exemplo) -, chocou pela violência, realismo e erotismo. E seria o guru de alguns diretores
como Klaus Lemke e Eckhart Scmidt, entre outros poucos. Existe hoje em Viena um
Instituto Schamlos , que realizada festivais e exibições de filmes
alternativos. Claro que a obra dessa turma passa ao largo do cinema alemão que
ficou conhecido em todo o mundo: Wenders, Fassbinder e Herzog à frente, todos
influenciados pela nouvelle-vague.
Seller pregava um cinema anti-intelectual, antes de tudo. No elenco um
rosto conhecido: Udo Kier, de trajetória gloriosa no cinema europeu e mundial,
aqui fazendo sua estreia. Mas quem brilha é a gata Marina Paal, sexy , amoral e
perigosa. Incrivelmente só atuou em
dois filmes e desapareceu sem deixar
vestígios. Ela é Annabelle, uma stripper que não tem escrúpulos
em trabalhar como prostituta e se deixar vender para mafiosos. Acalenta um sonho: se tornar estrela de cinema,
mas não consegue muito mais do que atuar em filmes pornográficos feitos para
chantagear velhos tarados. O gigolô e amante é Pohlman (Udo Kier), um gangster medíocre,
evadido de um circo onde era atirador de facas, que vive de oferecer “proteção
“ a comerciantes, e quando leva cano não hesita em usar da violência mais
sádica e alucinada possível. Os letreiros iniciais informam – com alguma
ironia -, que gangsteres reais
trabalharam no filme. É um detalhe que
ressalta o aspecto quase de documentário do filme. O pano de fundo onde estes seres marginais se
movem é uma Viena imaginária habitada por gangsteres gays, drogas, rock, strippers,
putas e bares enfumaçados onde artistas do movimento Aktionist encenam
performances selvagens. Um retrato da
contracultura vienense nos anos 60. Os atos impuros e escusos da bela Annebelle
acabam resultando em seu assassinato. O pai, um italiano, contrata Pohlman para
caçar o suspeito do crime, um ator decadente, gay e drogado, que foi
considerado inocente pela polícia e solto. Direção nervosa e febril, com influências
de Lang e Fuller. Do primeiro ela é evidente nas sequências do julgamento que remetem ao clássico ” M - O Vampiro de
Dusseldorf”; do segundo a violência estilizada. “Sem Vergonha” é o título do
filme, numa tradução literal. A trilha sonora fantástica de Gerhard Heinz é
dado que não pode deixar de ser citado. O filme só foi reeditado em DVD há
pouco tempo na Europa e deu as caras nos sites de compartilhamento, felizmente.
linK:
http://wipfilms.net/surreal-movies-collection/shameless/
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Il Demonio - 1963
Classificar um filme como obra-prima é sempre algo que exige
cuidado, mas no caso desse que relembro não há nada de audacioso pois não estou sozinho na afirmativa, compartilhada
por inúmeros críticos e blogueiros espalhados por este mundo do cinema. Como
seria de se esperar é ainda inédito no
Brasil e raro nos sites de compartilhamento. Foi exibido, é verdade em nossos
cinemas na década de sessenta. A obra de Brunello Rondi, fantástico roteirista
de alguns clássicos de Fellini, e dono
de uma filmografia pequena como diretor- 10 filmes apenas -, é valiosa e vem sendo revalorizada. O cinema italiano
sempre nos brinda com essas surpresas fantásticas pelas mãos de diretores que
tem pouca divulgação por essas bandas. Um amigo me mostrou faz alguns dias uma longa
matéria sobre o cinema italiano em uma das poucas revistas culturais que
podemos encontrar nas nossas bancas. Fui lendo, lendo e não vi nada diferente
do trivial que qualquer cinéfilo já sabe: neorrealismo, Pasolini, Fellini,
Antonioni, Rosselini, e outros nomes batidos e facilmente citados em qualquer
história do cinema. Nada de nomes como Dallamano, Bava, Polselli, Cavallone,
Martino, ou mesmo um Valério Zurlini, para ficar em nomes que lá fora são
conhecidos e citados. Confesso que fiquei irritado: estava diante da velha
situação de divulgação do “manjado”, do canônico, das vacas sagradas, que encontramos em
praticamente todas as publicações do país. Preguiça ou falta de conhecimento? Regurgitar
informações batidas, exaltar nomes que já são ícones. O que seria do cinéfilo
mais curioso e interessado senão existissem os blogs? No meu caso particular graças ao saudoso
Carlos Reichenbach em seu blog “Olhos Livres”, meu conhecimento do cinema italiano,
para além dos manjados, se abriu muito com suas dicas inestimáveis e únicas. Daliah
Levi, belíssima atriz israelense, em atuação magnífica interpretando Puri, uma
camponesa. Ainda que o filme fosse uma bomba, só pela presença dela já valeria assisti-lo, tal a força e a sensualidade que injeta de cada fotograma. O cenário é a rústica
Lucânia, no Sul da Itália, região de um catolicismo primitivo, quase pagão, que
guarda muitas semelhanças com o nosso Nordeste. Dir-se-ia que a história se passa num espaço
atemporal mais próximo de uma Idade
Média. Um dos raros críticos que elogiou o filme na época da estreia
classificou-o como a primeira obra surrealista da cinematografia italiana. E de
fato quem lembra do documentário “Las
Hurdes” de Buñuel poderá perceber alguns elementos em comum. E mais que isso o
surrealismo está presente no espírito e nos temas: amor louco, esoterismo
desenfreado, crítica á religião, entre outras coisas. Temos uma história de amor desesperada e triste:
Puri ama loucamente Antônio, mas não é
correspondida e é rejeitada. Aos olhos dos camponeses ela é uma bruxa,
responsável pelas desgraças que assolam o povoado, e ela crê que seja o que
todos pensam. A sequência inicial é uma
detalhada preparação de um feitiço com o qual ela pretende conquistar o amado que
está prestes a se casar. “La Fiancée du Pirate” de Nelly Kaplan, paradigma do
cinema surrealista, lançado em 1969, e comentado aqui no blog, guarda semelhanças
profundas com o filme de Rondi. Em ambos os filmes as heroínas são camponesas
que vivem isoladas, estigmatizadas pelos vizinhos primitivos e brutos e tidas
como bruxas. Uma declaração interessante de Brunello Rondi ajuda entender o
comportamento de Puri: “Minhas
personagens femininas expressam suas neuroses através do corpo”. Nesse ambiente quase
selvagem onde paganismo e cristianismo
se confundem, o grito de revolta de Puri
é narrado de maneira quase documental, seca e áspera. Um detalhe interessante:
Rondi trabalhou com Rosselini, pai do neorrealismo. Cenas marcantes: o encontro
com um rapazinho à beira de um rio; os camponeses levando as tochas pela aldeia
e erguendo uma fogueira, cena que remete aos melhores momentos góticos dos
filmes de Mario Bava, realizados na mesma época. De certa forma o que o espectador
tem é um tratamento mais seco da
temática dos filmes góticos em voga
naquela época, realizados pelo já citado Bava, e por outros diretores. Destaque-se as sequências do
exorcismo de Puri: seguramente William Friedkin e William Peter Blatty, diretor
e roteirista de “O Exorcista” respectivamente, viram o filme de Rondi. Um
filme, enfim a ser redescoberto em nosso
país. Para deleite dos interessados existe uma ótima cópia legendada em
espanhol no Youtube.
Link:
http://www.youtube.com/watch?v=gPcODyIjKNQ
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Blood Mania - 1970
Um título enganoso,
pois me fez pensar que estava diante de
um slasher sanguinolento (gênero que não aprecio muito), mas encontrei algo bem
mais interessante do que simplesmente jorros de sangue em profusão: Sexo softcore, melodrama, terror, thriller
psicológico e comédia de humor negro no balaio, menos blood(sangue) e mais
boobs(peitos). O resultado é um filme, obviamente, confuso, pretencioso e
bizarro para os padrões de bom gosto. O
que claro, não é ruim. Já expressei aqui inúmeras vezes meu fascínio por estes
filmes onde a insanidade parece tomar conta até do diretor. Tenho mesmo um
fraco por filmes imperfeitos, grotescos
e incoerentes, onde o pulso ainda pulsa, mesmo que seja em uma única
sequência. O filme foi motivo de piada na “Frightmare The Series”, um dos
incontáveis programas de TV americanos que exibiam filmes B com intenções de
deboche( O vídeo pode ser visto no Youtube). Uma produção da fantástica Crown
International Pictures, uma das melhores produtoras de filmes Bs dos anos 60 e
70. Direção de Robert Vincent O ‘Neil, uma carreira curta com apenas 8 filmes, diga-se
passagem, quase todos ótimos. Realizado
nos tempos áureos da exploitation americana, na virada da década de 70, tempos em que
o espírito de liberdade imperava até no mainstream americano. Drogas, sexo,
feminismo, racismo, tratados com desenvoltura como nunca mais aconteceria, e
longe da caretice do politicamente correto. O filme que relembro não tem, por
exemplo, nenhum personagem que seja remotamente simpático ou normal. Todos
deixariam nosso Nelson atarantado e se achando o maior dos caretas ( que ele era mesmo,
aliás). Os críticos e comentaristas do filme apontam o aspecto de “soap opera”
do filme, e afinal o que temos é o
retrato singelo de uma família tratada como uma novela das oito imoral e grotesca. Pai incestuoso, uma filha ninfomaníaca e
psicopata, a outra tola e lésbica, e no
meio o médico inescrupuloso e com uma namorada
que não hesita em transar com o chantagista do namorado para tentar livrar a
cara dele. Maria de Aragon, de nome hispano, mas nascida no Canadá, teve neste
filme seu papel mais relevante. Ela chegaria até a atuar em um dos filmes da série Guerra nas Estrelas alguns anos
depois. Nessa época estava casada com Peter Carpenter, ator e roteirista do
filme. Ele é Craig , médico picareta, chantageado
por um ex-parceiro, precisa arranjar com urgência 50 mil dólares, caso
contrário seu passado como especialista em abortos seria revelado e arruinaria
a sua carreira. Para sua sorte, ou azar, Victoria(Maria de Aragon), uma
ninfomaníaca rica, que se distraia pintando enquanto o pai permanecia travado
numa cama, lhe oferece o dinheiro em troca de favores sexuais. Para conseguir a
grana a moça não hesita em matar o pai com uma overdose. O testamento aberto e uma
surpresa desagradável: para Victoria apenas uma pensão semanal de 250 dólares,
e toda a fortuna para a irmã mais nova. E adivinhem o que nosso herói faz?
Abandona Victória imediatamente e seduz a irmã rica. A destacar a ótima
trilha sonora a cargo de Don Vicent, a bela fotografia e a direção estilizada .
Um filme a conferir e que pode ser encontrado no Youtube na “Frightmare The Serie”, como disse anteriormente.
terça-feira, 2 de abril de 2013
quarta-feira, 27 de março de 2013
El Triângulo de Oro (La Isla Fantasma) - 1983
Quando fazia pesquisas para escrever a resenha sobre o filme
“O Inquisidor” – uma coprodução entre Peru e Argentina - tive notícias de Jairo Pinilla um diretor colombiano, e me chamou a atenção o fato dele se dedicar ao gênero
fantástico. Algo inusitado : um diretor colombiano realizando filmes
de gênero. Ao lado do nosso Jose Mojica
e do hermano Emilio Vieyra um dos raros
nomes que praticaram de forma mais sistemática o terror e o fantástico na
América Latina. E ,assim como nosso
Mojica , filmes realizados em condições
precárias: orçamento exíguo, atores não profissionais. Os críticos o apelidaram de o “Ed Wood
colombiano”, o que pode soar bizarro ao quadrado. Para aqueles que acham que o cinema é uma arte que exige padrões
de qualidade técnica, interpretações classe “A” e nada que incomode, que seja um afago no ego em suma, os filmes
dele não serão indicados e aconselho a evitá-los. Mas se você acha que o cinema
pode ser mais do que isso, que ele deve e pode ser ingênuo, louco, furioso, idiota,
insolente irreverente, descomunal, insensato, infantil, primitivo, alucinado,brutal, então mergulhe no universo desse
colombiano que ainda está vivo e produzindo filmes modestos na terra natal. Lembrei nosso
Zé do Caixão , mas o universo de Jairo também tem muito a ver com os filmes de
Chico Cavalcanti e outros diretores da Boca que realizaram filmes de terror.
Interessante que ele se arriscou a explorar outros gêneros, como neste filme
que relembro bem mais próximo do fantástico com toques de ficção científica, do
que do terror. O filme foi dublado em inglês e filmado fora da Colômbia – no Panamá e no Caribe -,
com a clara intenção de que soasse como uma produção americana ou
internacional. Jairo comentaria que o
público gostou e achou que estivesse diante de uma produção japonesa! Na mesma entrevista o
diretor resumiu a obra: “Tratava-se de
uma ilha no Atlântico que era visível somente de um determinado ângulo, e dos outros restava invisível. Na ilha havia um
triângulo de ouro maciço cobiçado por muitos, mas que era, no entanto perigoso,
já que todos que chegavam á ilha para busca-lo geralmente não saíam vivos”. Uma
ilha perdida no oceano, um objeto, um segredo, um desejo, um sonho. Um filme em
todos os aspectos único: um “Lost”
tosco, mas com a poesia de Mélies ,Jules
Verne e dos verdadeiros artistas do cinema primitivo. Ed Wood, mas também Steven Spielberg: um
crítico conterrâneo escreveu depois de ver este filme que” Jairo ,guardada as
devidas proporções, era o Spielberg colombiano”. Sobre o filme ele declarou,
com franqueza e coragem, que a intenção não foi de fazer um filme de arte, como os outros
diretores do país sempre faziam, mas um
filme comercial. Jairo se assumiu ingênuo (trabalho para pessoas que querem se
divertir, e não gente pretensiosa , comercial sim(não pretendo fazer filme de
arte),kitsch( se considerar que ser kitsch é ser vulgar e fazer os outros se divertirem,
então eu sou kitsch). Jairo tem outra tirada que faria as delícias dos que
desejam esculhambá-lo: “No cinema prefiro Batman a Bergman”. Jairo, assim como nossos Tonys, Cavalcantis , Cunhas e tantos outros ,foi
mais um que se arriscou a realizar filmes para o público simples, longe das
veleidades e pretensões sociológicas e artísticas. Lembrando que Jairo Pinilla foi homenageado no
festival de cinema fantástico realizado em São Paulo em 2010, juntamente com
seu coirmão José Mojica. Para os interessados todos os seus mais importantes filmes(
a obra é pequena) estão disponíveis no Youtube, incluindo este que relembro.
domingo, 17 de março de 2013
A Força dos Sentidos - 1979
É sempre um momento muito especial para um cinéfilo –detesto o termo, mas enfim- quando
finalmente conseguimos um determinado filme que julgávamos perdido ou
impossível de encontrar. As notícias que obtivera sobre a possível existência da(considerada)
obra-prima de Garrett terminavam invariavelmente em um beco sem saída. A Cinemateca
Brasileira tem uma cópia, mas segundo um amigo me confidenciou, sem uma parte
da banda sonora, o que impede qualquer exibição em um Canal Brasil, por exemplo;
a edição em VHS sequer fora comercializada nos anos 80; enfim, já me dera por
vencido e desistira de um dia assisti-lo. Cheguei a escrever para um blogueiro
e jornalista, que pelo comentário postado sobre o filme conhecia e tinha uma cópia,
mas nunca obtive a gentileza de nenhuma resposta à minha solicitação, ainda que
fosse negativa. E eis que um dia desses aparece no Facebook um anúncio do
diretor Claudio Cunha – que felizmente é amigo virtual - oferecendo os filmes
que dirigiu e o filme do Jean Garret, que foi produzido por ele, estava ali no
meio da chamada. Parecia um trote de sádico, mas não era: mensagem trocada,
dinheiro enviado, e enfim o sonhado e ansiado filme diante de mim. Não tenho a
pretensão de fazer uma elucubração crítica sobre ele. O meu espaço virtual é ameno e trivial. Convencer um eventual leitor a se
interessar pelo filme já me terá deixado feliz. Jean Garrett é para mim um dos
melhores diretores brasileiros de todos os tempos. E depois de assistir a este
filme só confirmei o pensamento, apesar de ainda continuar achando que “A Mulher que Inventou o Amor”
seja melhor. Só revendo-o para tirar a boa dúvida. Felizmente as obra da Boca
do Lixo tem recebido mais atenção de alguns anos para cá. Mas sou testemunha de
que nas minhas rodas de amigos cinéfilos quando toco em nomes de diretores como
Garrett, Chico Cavalcanti, Tony Vieira, Fauzi Mansur ou outros, simplesmente
zombam e debocham de mim. Lendo o maravilhoso “Mondo Macabro” de Pete Tombs,
livro também que só consegui com muito esforço ( e mesmo assim em versão
digital), achei interessante uma observação sobre esta questão de recepção
crítica á obras que fogem do padrão cinéfilo “cinema de arte de qualidade” que
predomina entre nós. Curiosamente vejo que esta é uma tendência que predomina nos países de
cinematografias periféricas. O comentário de Pete Tombs se referia ao cinema
argentino, e caberia perfeitamente à realidade brasileira. Lá como cá cineastas
que não rezaram pela cartilha cinema de “qualidade”
artística (diga-se passagem que os Hermanos fazem este tipo de cinema muito
bem, ao contrário de nós )são menosprezados. Um dia desses conversando com
amigos, por exemplo, um deles se referiu a mim como um amante do cinema
argentino, o que despertou o interesse de outro na mesa, mas quando citei os nomes de
Vieyra, Armando Bó e outros, vi apenas uma cara incrédula: nenhum deles ele
sabia da existência. Boa parte dos cinéfilos tem como parâmetros de qualidade
filmes referendados pela crítica francesa dos anos 60, que tenham temática
séria e adulta, que não tragam conteúdo erótico de mau gosto, e claro, que
tenham interpretações excelentes dos atores, trilhas sonoras classudas ,
temáticas preferencialmente de esquerda,
de cunho social e otimistas. O sucesso do recente filme francês “Os Intocáveis”, é um
bom exemplo, creio. O cinema, enfim, enquanto arte esnobe, excelsa, afetada e
para eleitos. O português Garrett trabalhou sempre dentro de uma linha de
produção dirigida ao público popular, mais “baixo” possível, aqueles que só
queriam mesmo ver mulher pelada gostosa, bater uma punheta e esquecer a vida
miserável que levava nas grandes cidades ou pequenas.
A crítica mais comum feita à obra de Garrett seria de que seus
os filmes eram pretenciosos e afetados – pela utilização de músicas clássica na
trilha, e diálogos supostamente “ridículos e pedantes”. Um crítico famoso na
época ironizou o fato do personagem escritor buscar refúgio em uma ilha sob a
alegação de que isso era uma ideia impensável num país onde não existiria
escritor profissional. Gostaria de,
aliás, de saber se este “crítico” comentou “A Menina do Lado” de Alberto Salvá,
outro filme que gosto muito, e que também é sobre um escritor refugiado em uma
ilha deserta. Dentro dessa lógica quase toda a
cinematografia mundial teria que ser eliminada da face da Terra por
inverossimilhança. Seria divertido se não fosse grotesco a suposta observação.
Para mim- que não sou crítico- justamente
o que me agrada na obra do diretor é esta tentativa de pretensão e elegância,
sem perder, no entanto o foco no popular. “A Força dos Sentidos” é sofisticado
sim, tem narrativa sinuosa, carregada de ambiguidade e sem nenhuma referência
imediata á realidade nacional. A trama poderia se passar em qualquer lugar,
pois ela pertence ao terreno do fantástico mais puro.
Meu gênero literário favorito sempre foi a literatura
fantástica – de certa forma considero que obra é fantástica em sua essência. Nada mais óbvio, portanto, que
também me atraia o cinema de cunho fantástico em todas as suas variáveis. Uma
pena que o gênero foi pouco praticado no país tanto no cinema quanto na
literatura. Garrett , um dos raros cultores do gênero, dentro de um modelo
bastante pessoal, muito distante de um Mojica, por exemplo. Surpreenderam-me,
no filme, as evidentes semelhanças com obras do cinema mundial anteriores e
posteriores: Os roteiristas – Garrett e Koszpeky – conheciam “Carnival of
Souls”? Não acredito, mas tudo é possível; e o que dizer de “Sexto sentido” e “Os Outros”,
dois filmes marcantes recentes que
trazem igualmente similaridades curiosas com o nosso obscuro filme nacional?
Uma crítica honesta publicada na época lembrou “Os Inocentes”, clássico inglês de
Jack Clayton, o que faz sentido remotamente. O fato é que é, talvez ,o filme mais impregnando pela atmosfera do fantástico em toda obra do
diretor, e talvez de todos os filmes brasileiros do gênero. Nada do que se
desenrola na tela, percebemos nas sequências iniciais, é real. O espectador é
imediatamente convidado a mergulhar no terreno do fantasmagórico e do
imaginário. Está claro, Garrett não esconde que há algo errado em toda a
situação vivida pelo escritor. A estupenda fotografia de Carlos Reichenbach –
que ele considerava a melhor que fez em toda a carreira como fotógrafo –
acentua com planos maravilhosos o clima opressivo e sombrio. Em suma: que bom, que esta obra
pode ser apreciada novamente por todos. No site do diretor e ator Claudio Cunha
o filme pode ser adquirido www.claudiocunhaproducoes.com.br
Assinar:
Postagens (Atom)





