terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Los Placeres Ocultos - 1989

O  belíssimo título em espanhol sugere ao espectador uma  intensa carga erótica, por sua vez o título da versão americana (Playback)sugere  violência, vingança. Ambos, como veremos, estão certos: na receita temos sexo, perversões, vingança, violência. E o inicio já nos pega pela jugular pelo bizarro e selvageria: uma mulher bonita, de meia idade é atacada na porta do hospital onde trabalha  por um sujeito com mascara e boneca e levada a um local ermo  onde é estuprada, espancada e atirada deum barranco, só escapando porque ficou pendurada pela corda com quem o tarado a amarrou. A dama em questão é psiquiatra, e disposta a encontrar o maníaco logo suspeita que ele possa ser um dos seus pacientes. Descobre-o e o enreda numa teia  de joguinhos eróticos calientes : Um  plano de vingança meticuloso e insano pontuado por uma sarabanda de sexo “kinky”.Afinal não se cutuca uma representante da burguesia  bem casada e com família respeitável impunemente. Sonia Infante, bela atriz já quarentona, não se furta em exibir os atributos físicos nas  cenas sensuais. O final tem o esperado “twist” de roteiro. O filme emulava os tiques e cacoetes do famigerado thriller erótico, subgênero de origem italiana  que curiosamente encontraria terreno fértil no cinema americano mainstream culminando em “Instinto Selvagem”  de 92. A direção é do magnifico e prolífico Rene Cardona Jr, diretor de dezenas  tranqueiras clássicas da exploitation mexicana. A versão disponível é dublada em inglês . Alguma chance de existir uma versão original ainda mais caliente? Talvez.

sábado, 30 de novembro de 2013

Occhio dietro la parette - 1977

Boa parte das resenhas  de um filme  tem a necessidade de classifica-lo em determinado gênero.  Normal. O problema, que muitas vezes ocorre, é que este pode escapar aos limites dessa classificação. O que isso significa: que o filme pode estar lançando um gênero novo, ou simplesmente é um híbrido assumido? O filme que relembro é um bom exemplo desse problema. Em 1977 o giallo agonizava depois de quase 20 anos de obras incríveis. Este epígono  não conservava do gênero ,na verdade , pouco mais que o ambiente perverso e doentio, de resto prenunciava  o thriller erótico ( filho bastardo do giallo). Um drama  com elementos vagos de terror e mistério e melodrama familiar, certamente.  Prato cheio para psicanalistas pelas taras e perversões que arrolava nos seus 77 minutos. Claro que muita coisa mudou desde então e boa parte dessas  taras se tornaram rotineiras e aceitas, e podem  ser vistas hoje em qualquer novela. Voyeurismo, sodomia, incesto e outro vícios : um Nelson Rodrigues italiano, sem o humor  do nosso dramaturgo. Fica, no entanto como um documentário da mentalidade de uma época que  agora nos parece distante em demasia, uma curiosidade arqueológica. Da psicanalise para uma simples arqueologia das perversões. A duração curta se explica pela história conturbada da produção: cortes sofridos, demissão do diretor Giuliano Petrelli (foi seu único filme). Ao que tudo indica não existe possibilidade de aparecer um dia uma edição sem cortes. As resenhas sempre enfatizam  as semelhanças com “Janela Indiscreta”, o que tirando o detalhe do homem espionando na cadeira de rodas , não corresponde realmente ao filme. Fernando Rey é Ivano, um escritor impotente de preso à cadeira de rodas, que vive em companhia da jovem esposa (?) e se se dedica  a espionar o cotidiano do inquilino para colher material para seu novo romance. A curiosidade extrema o leva a sugerir que a jovem esposa trave contato com o vizinho e o seduza. Arturo, interpretado por John Phillipp Law, o astro de Diabolik, já meio velho para o papel do rapaz é  o  clássico “beatnick” das fantasias cinematográficas, e também  um tarado estuprador e assassino, e que se revela  também bissexual. A primeira sequência  do filme, e de impacto, é o  assassinato  e estupro de uma moça em um trem. Curiosamente é o único crime que acontecerá. O que se desenrola no filme é  a previsível sedução da jovem esposa pelo  ambíguo e sedutor Arturo. Outro personagem curioso e pervertido é o mordomo Otávio, que tem  uma fixação pela patroa Olga e por seus pelos púbicos que ele recolhe da banheira após os banhos dela. O fato gera o único momento cômico do filme quando ela flagra Otavio cheirando os  seus pelos. Um detalhe curioso: O IMDB indica que é um  coprodução com a Shaw Brothers , produtora chinesa de Hong Kong, conhecida pelos filmes de terror e kung fu.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Deathdream - 1972

O clássico “Os melhores anos de nossas vidas “ de William Wyler retratava o drama dos soldados regressando da guerra e tentando a readaptação à realidade depois dos horrores vividos. Nação que faz da guerra a condição básica para se impor e sobreviver, a América , geração após geração reinventa esse drama no cinema em todos os gêneros.  O filme que relembro  toma  como ponto de partida a guerra do Vietnam. O prólogo retrata uma cena típica de combate e vemos um soldado sendo atingido e morrer. Em seguida as imagens passam do horror para a tranquilidade da vida familiar típica americana reunida na mesa de jantar. O idílio é quebrado por uma batida na porta e o anuncio da tragédia: o filho soldado fora morto em combate. Miraculosamente, no entanto o rapaz regressa  e tudo parece  bem novamente. Mas fica claro que o rapaz não é mais o mesmo. Sorumbático se limita a permanecer sentado no quarto escuro numa cadeira de balanço.  A base para o filme é o conto “A pata do macaco” de W.R Jacobs, que já lembrei aqui em resenha de outro filme há algum tempo, só que agora a filiação é óbvia. A trama segue em linhas gerais fielmente o conto, fácil de encontrar em antologias de literatura fantástica.  A mãe reza  para que o filho regresse e seu desejo é atendido, mas com consequências imprevisíveis e pavorosas. Uma sombria alegoria de todas as guerras, carregada de simbolismo por todos os lados.  Zumbi, vampiro, ou simplesmente um herói deslocado incapaz de lutar na guerra familiar do cotidiano do american way life e sua boçalidade cor de rosa?  Bob Clark realizou três pequenos clássicos no gênero de terror  e este é um deles. Curiosamente depois se dedicaria a comédias ligeiras e realizaria  a infame “Porkys”. O filme é conhecido também pelo título “Dead of Night” e pode ser encontrado  nesse link: http://thepiratebay.sx/torrent/8272852/

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

La Lunga Notte di Veronique - 1966

Pérola obscura do gótico tardio italiano que ainda espera o resgate e edição em DVD, como tantos outros filmes peninsulares daquela época.  A cópia única que circula por sites como o Cinemageddon, por exemplo, se origina de um antigo VHS dos anos 80. A fortuna crítica é quase inexistente. Gianni Vernuccio dirigiu 22 longas entre a década de 50 e70, nenhum deles alcançou  nenhuma  repercussão. No elenco nenhum nome de menção . A estrela do filme , Alba Ragazzi, não passou  desse filme, e foi uma das tentativas fracassadas de produtores  em lançar uma nova Cardinale, Loren, etc. A moça tinha vencido o Miss Itália no ano anterior e o filme foi  com certeza uma tentativa de veículo no cinema. O fracasso do filme parece que a desanimou e nunca mais se teve notícia dela. Um jovem após a morte dos pais em um acidente descobre que o avô é um conde ricaço que vive num castelo e vai visita-lo.  Após alguns dias conhece uma moça misteriosa passeando pelos arredores e se enamora dela. Classifica-lo de gótico é um exagero, pois a trama se desenrola em ambiente moderno, quebrado apenas por flashbacks na época da guerra e que esclarecem o mistério do  passado do Conde e da moça. Mas temos um castelo, corredores escuros e um legítimo fantasma com um segredo mortal. Melodrama com toques românticos, terror tênue e sem arroubos excessivos. A sensualidade é discreta no quesito nudez, fato raro no cinema italiano da época. Daí o fracasso do filme? Provavelmente, se considerarmos que estávamos no alvorecer do giallo , os espectadores queriam mais sangue mais carnes expostas. Sexo e morte explicitados no écran, sem sutileza e devaneios. O clássico obscuro  americano “Portrait of Jennie” de William Diertele, filme favorito de Bunuel, e matriz de todas as histórias de homens apaixonados por moças misteriosas é a inspiração longínqua desse filme que relembro. Boa caçada.

sábado, 19 de outubro de 2013

Cry for me Billy - 1972

Western é um gênero infelizmente morto, não se adaptou á lógica sinistra dos blockbusters. Uma pena. As tentativas recentes de revive-lo  foram desastrosas, só para lembrar “The Lone Ranger” e “Aliens and cowboys”. Nos anos 70 as produções já rareavam, mas aqui e ali obras primas  surgiram já adaptadas ao universo da contracultura, ecos de 68, conceitos  anticapitalistas e uma visão holística e tolerante com  os índios e minorias. É nesse contexto que este pequeno e obscuro filme está inserido. O título quase me enganou acreditando que estava diante de mais uma versão da vida de Billy the Kid. Longe disso. O que temos é um western melancólico e outonal, na linha dos filmes de  Monte Hellman ,Peckinpah e Boetticher. Billy, um pistoleiro errante salva uma índia apache de alguns soldados . Ambos iniciam uma jornada sem rumo pelo deserto, e pouco e pouco, como seria de se esperar uma relação se estabelece entre eles. Nenhum otimismo, contudo, e a tragédia não vai tardar em se abater sobre este amor maldito. O erotismo é componente forte no filme. A índia passa boa parte do filme nua, e as cenas de sexo são graficamente  fortes. O espectador está  diante de um faroeste exploitation de certo modo. Maria Potts, a índia, era dublê e só  atuou em três filmes. O trabalho aqui foi fácil, pois não abriu a boca em nenhum momento, limitando-se a gemer, grunhir e ficar nua. O mesmo sobrenome do ator principal entrega que eram casados fora das telas. No elenco a presença sempre carismática de Harry Dean Stanton, que infelizmente só dá as caras no inicio e no fim do filme. William Graham ,o diretor ,teve carreira longeva dirigindo episódios de séries de  TV, este foi um dos seus raros trabalhos para o écran. Um pequeno western  que se não chega a ser brilhante  merece uma conferida.  Existe um torrent dele ainda com seeds: http://thepiratebay.sx/torrent/8744441/

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

The lady Avenger - 1981

Taiwan sempre teve , assim como na politica, a cultura cinematográfica obscurecida pelo gigante chinês. E mais do que isso: confundido com o cinema de Hong Kong.  Mesmo em blogs podemos observar certa confusão com relação aos filmes. Entre 1979 e meados da década de 80, ou seja, um período curto, o cinema local viveu sua fase exploitation , apodada “Taiwan Black Movie”, e que  agora vem despertando interesse de cinéfilos mais abertos e curiosos.  Como estamos falando de exploitation não é difícil imaginar a temática desses  filmes: estupros, vinganças, criminalidade, sexo, violência e horror. Assim como em outras cinematografias onde a exploitation teve seu momento  tudo acabou num piscar de olhos em fins da década de 80. Vários motivos contribuíram: censura política, que obviamente não via com bons olhos um tipo de cinema que denegria o país, economia, e principalmente o fato de que boa parte dos filmes era financiada pela máfia local. Muitos filmes perdidos, e os que sobreviveram  graças a edições VHS piratas lançadas em Hong Kong. Nada muito diferente da nossa Boca do Lixo, por exemplo, cuja maioria absoluta dos filmes sobreviveu graças à pirataria. O filme que relembro ganhou exibição em um grande festival de cinema asiático realizado em julho em New York, ao que tudo indica na única cópia existente e em 16 mm.  Vingança e estupros aos montes no menu. Uma modelo muito bonita abandona o set e sai por uma estrada deserta pedindo carona. Ingenuamente troca de roupas diante do motorista e logo em seguida é estuprada e espancada. O tarado era um playboy filho de umas das famílias mais poderosas locais. Sendo assim o processo que a moça  move contra ele não dá em nada, e só  lhe resta, após uma malograda tentativa de vingança, o suicídio. Uma repórter ( interpretada por  Luk Sin-Fan, outra beleza de mulher) acredita na história dela  e resolve prosseguir com o caso, despertando  os desejos lúbricos do tarado playboy que passa a segui-la nas caminhadas noturnas. Mas antes que ele alcance seus desejos pervertidos, ela atacada por um bando - após impedir um estupro  de outra coitada- e currada por eles. O clássico exploitation “I Spit in your Grave” fez escola : nossa heroína  é abandonada pelo noivo careta, e sai à caça dos estupradores matando um por um. Cada morte mais surreal e grotesca que a outra. Vem à lembrança também os japoneses pinku, com os estupros insanos, e é claro o pequeno clássico de Abel  Ferrara “Ms 45”, ápice cult do subgênero “vingança e estupro”. O curioso neste filme de Taiwan é que o diretor Yang Chia-Yun, também roteirista, é na verdade uma mulher, o que da à trama um elemento inusitado a mais ao filme. Estamos longe de uma obra-prima sob qualquer ponto de vista, ainda mais que a cópia que tive acesso, e que presumi seja a única disponível no mundo ripada de um VHS vagabundo esteja em condições semelhantes às mulheres do filme. Nada disso tira, entretanto dele a aura de selvageria, aliás, pode se dizer que defeitos realçam esse aspecto do filme.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

KIdnapped Coe - 1976

Frederick R. Friedel só deixou três filmes na história do cinema B americano dos anos 70. Nada incomum se lembrarmos de tantos outros malucos que só deixaram um ou dois filmes. Pequenos realizadores regionais muito distantes do cinema padrão de Hollywood,  Deve-se salientar que o diretor continua na ativa ao contrário de tantos outros esquecidos e realizou seu último filme recentemente. O que temos aqui?  Vários pontos: um precursor dos filmes de John Waters; uma exploitation sem nudez; uma love story de amor incongruente; um road movie com toques surreais e de humor negro. Jack Cannon é um  bandido comum que rapta Sandra(Leslie Rivers), uma mocinha feiosa e sem graça, quando ela saia da pensão onde morava. Os planos de resgate não vão adiante, mas os dois acabam se enrabichando. Pelas estradas do interior da Carolina o casal vai cruzando com bandidos e malucos, esquisitices de toda sorte, até o final ambíguo e aberto. O diretor singelamente declarou que optou por isso pela simples razão de que não havia mais dinheiro para as filmagens. A observação não é minha, infelizmente: se este filme fosse francês seria saudado por  muita gente  como uma obra-prima. Um bom exemplo da era de ouro da exploitation americana dos anos 70, mas curiosamente sem nenhuma cena de nudez. Imperfeições a parte, o filme se destaca pela direção vigorosa e uma fotografia  criativa. Lição de como driblar inexistência  de orçamento. O filme, felizmente ganhou boa edição em DVD nos EUA, e salvo do limbo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Sexo, sexo e sexo -1984

Os títulos dos filmes de Chico são diretos, apelativos e provocam  ao  máximo o espectador. Este promete muito, muito sexo a julgar pelo título e o cartaz. Existe uma versão com sexo explicito, diga-se de passagem. Vários  dos seus filmes realizados a partir da entrada do sexo explícito  nos anos 80 passaram pelo dissabor de cenas  de sexo hardcore inseridas quase sempre de forma gratuita, e não poucas vezes protagonizadas por atores alheios às tramas. Felizmente minha versão é a “normal”.  Meu limite para  determinado tipo de tosqueira  não é dos maiores, confesso. Mas, claro que não deixo de dar uma espiada nos sady babys da vida e Cia Ltda., sempre rola alguma surpresa que garante a aventura. Se tiver que apontar meu diretor favorito na Boca  este seria, sem nenhuma dúvida, Chico Cavalcanti. Os adjetivos para os seus filmes sempre giram em torno dos adjetivos de  tosco, rudimentar, primitivo e simples. Cinema direto, despretensioso, e ingênuo sim.   Chico nunca negou  isso, O mais próximo do que o cinema da Boca chegou do universo  dito brega  e cafona da canção popular brasileira dos anos 70, de Odair Jose, Fernando Mendes e tantos outros menosprezados e debochados pela crítica oficial.  Uma analogia com a poesia: um cruzamento entre Augusto dos Anjos e Casemiro de Abreu. Um cinema livre de quaisquer influencias externas, puramente brasileiro na temática e no estilo.  Cinema de comunicação direta com o espectador. Puro instinto.  Sempre reafirmo que o cinema não tem que ser refém do teatro, da  musica ou do romance, e muito menos da televisão (Aí  já e dose para leão, não? ).  E a obra de Chico é cinema vital, bruto e sólido. Este filme  que relembro começa meio parecido com a obra-prima “Noite do desejo” de Fauzi Mansur: dois desocupados marginais saem pela noite á procura de uma farrinha, de zona em zona, de boate em boate, cada uma mais vagabunda que a outra. Carlos e Nico são como tantas pessoas reais que iam assistir aos filmes de Chico, pessoas pobres, sem perspectivas, condenados a  viverem trabalhando quase como escravos em troca de um salário miserável no inferno urbano da metrópole insana. Escapar a essa sina só pelo crime.  Tentam ,é claro ,o caminho honesto. Mas os dois se dão mal depois que um deles dá umas porradas no chefe mala que flagrara fumando um baseado . E depois disso tem início  para a dupla uma  jornada de crimes medíocres, quase simplórios, e por isso mesmo muito reais, que os deixará  mais uma vez em outro beco sem saída, até que conhecem duas putas em um dos muquifos que frequentavam, e essas lhe apresentam um malandro  arrumadinho. Aqui entra em cena  a presença sempre magnética de Francisco di Franco, eterno Jerônimo, o herói do sertão, e que sobrevivia  em produções da Boca nessa época. Um amigo lembrou que ele morreu na miséria. Um absurdo, caso fosse americano teria fã-clube e seria idolatrado até hoje, assim como Chico, é claro.  O aumento do séquito de larápios dá ensejo ao desejo de voos e golpes mais altos.  Chico  Cavalcanti e o seu “Grande Golpe” Kubrickiano ,ou um Fuller tropical, sem glamour, muito próximo das ruas sujas do centro da grande São Paulo, e sendo assim autêntico, original em sua poesia do desencanto e da mediocridade. Infelizmente nenhum filme de Chico foi existe em DVD , mas este e alguns outros  felizmente volta e meia são reprisados no Canal Brasil. Menos mal. Salve Chico Cavalcanti, mais um herói do cinema brasileiro e da Boca.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Shock 'Em Dead - 1991


Confesso que só cheguei a este filme por causa da presença de Traci Lords no elenco. Quatro anos depois do escândalo em que se envolveu quando descobriram que atuava em filmes pornôs com idade inferior a 18 anos. De Lolita do hardcore para rainha do filme B no final dos anos 80 e começo de 90. Cinquentona, continua na ativa. O blog She Zine publicou um bom dossiê sobre ela  há um tempo e, portanto não vou me estender em maiores detalhes.  Para os tarados um aviso: ela não aparece nua neste filme. Uma pena. Aliás, sua atuação aqui neste filme é discreta. Além de Traci Lords temos  no  elenco  Stephen Quadros, no papel do roqueiro demoníaco Angel, ex pizzamen nerd. Troy Donahue, astro dos anos 50 numa ponta. Aldo Ray, figura carimbada em filmes B faz o papel do dono da pizzaria.  A direção é de Mark Freed. Trata-se de uma comédia  de humor negro com alguns momentos de gore. Não esperava nada do filme, e fiquei surpreso com ele.Divertido, insano, sem medo de ser idiota, politicamente incorreto, trash até a medula. Uma banda de metal pra lá de farofa – meio Poison, meio Motley Crue -, com um vocalista absurdamente gay ( e que ficaria melhor como vocalista de uma banda new-wave), procura por um guitarrista às vésperas do início de uma tournée.  O nome da banda: Spastic Colon.Um nerd que trabalha numa pizza se oferece para fazer um teste. Desastre total: o coitado era inepto  com a guitarra e é expulso e ridicularizado sem dó e ainda perde o emprego na pizzaria. A sorte muda quando aparece em  seu caminho uma sacerdotisa/feiticeira vodu- sim, isso mesmo, existem criaturas desse tipo nas ruas de Los Angeles – e lhe oferece um singelo pacto com o coisa ruim, o Cujo, O demo. Nunca se soube nos anais da literatura, do cinema ou da mitologia, de alguém  que tenha se dado bem com tal acordo. As entrelinhas desses contratos costumam esconder clausulas para lá de perigosas e funestas para os incautos.  E nesse filme não será diferente. A chamada do cartaz diz que “pela garota dos seus sonhos ele faria um pacto com o diabo”, o que não corresponde à trama do filme. Ele só cai de amores por Traci depois que já se tornara um guitar hero de araque e tinha o mundo aos seus pés. O filme não fez feio perto das produções da Troma, o que dependendo do ponto de vista pode ser uma advertência para evita-lo a qualquer custo.  A guitarra foi dublada por Michel Angelo Batio e tem aquele estilo que consagrou Joe Satriani, bem veloz e cheio de notas. Os vocais ficaram a cargo de Ricky Livingstone. O filme foi lançado em VHS no Brasil com o título de “Magia Negra no Rock”. Existe um link para download na net: http://depositfiles.org/files/2ya1lz1f4 ( Possessed by Movies)

sábado, 15 de junho de 2013

Libidine - 1979

A zoofilia é tara velha, e o cinema já explorou aqui e ali. Nosso cinema pornô da Boca foi pródigo na exploração dela. Antes da onda do  explicito Jean Garret fez o sensacional “Mulher, Mulher” que tinha a cena de Helena Ramos sendo lambida por um cavalo. Inolvidável. Os italianos fizeram o clássico “Bestialitá” em 1976, onde um cão fazia amor com uma mulher. Confesso que não aprecio muito essa corrente da exploitation, incluindo os filmes da Boca que investiram neste filão. Tem gente que gosta ou tem curiosidade a respeito, não? Mas vamos ao filme, sem dúvida um dos mais insanos e bizarros que explorou a zoofilia. O que temos aqui é um quê de horror, muito erotismo com cenas que beiram o explícito e até toques de giallo. Um cientista maluco faz experiências com serpentes em seu laboratório  sonhando em criar um ser meio serpente meio homem, que segundo ele solucionaria o problema da fome no mundo! Imerso nessas preocupações profundas não esquenta a cabeça com a jovem esposa Carla(marina Hedman), uma frenética ninfomaníaca que passa boa parte do filme fazendo sexo com o mordomo ou com a empregada interpretada por Ajita Wilson, figura enigmática do cinema europeu dos anos 70. Homem ou mulher? Ao que tudo indica nasceu homem, fez uma operação para mudança do sexo e foi fazer filmes exploitation na Europa até morrer em um acidente.  A dupla garante a voltagem erótica ao filme. A primeira, sueca de origem, teve longa carreira no cinema italiano, atuou em filmes pornográficos, e fez ponta em “Cidade das Mulheres” de Fellini. A impressão que tinha neste instante era mesmo de apenas mais um filme erótico italiano. Mas a filha do cientista retorna para casa depois de uma temporada em um colégio de freiras. OK, ela era virgem, mas às primeiras cenas em que aparece já fica nua e logo é assediada por todos na casa: pela madrasta, pelo criado e pelo assistente de laboratório do pai. A vingança pelo assédio vem na forma de uma  serpente que o pai utilizava para os experimentos: um por um os tarados vão sendo mortos por ela. Entre o réptil e a virgem se estabelece uma relação de amor, que vai culminar com uma cena única no cinema, e que não contarei aqui, mas que garanto que é o ápice da zoofilia no cinema. Afinal não recordo de ter visto uma mulher fazer amor com uma serpente.O diretor Raniero di Giovanbattista, não teve carreira longa no cinema, com apenas quatro filmes assinalados pelo  IMDB.A trilha do genial Stelvio Cipriani dispensa comentários. O filme até pouco  era tido como raro e obscuro, não consegui, por exemplo, encontrar nenhum comentário e respeito dele, deu  enfim as caras agora em sites e pode ser encontrado no Eurotorrents.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Thirsty for Love, Sex and Murder (Aska Susayanlar Seks Ve Cinayet )-1972

Minhas manias cinematográficas são muitas, ou paixões, para usar um termo mais elevado. Algumas antigas, caso do giallo e do gótico italiano, ou dos japas, outras relativamente recentes, caso do cinema turco dos anos 60 e 70. A medida que vou descobrindo novos filmes nesse universo mais e mais me entusiasmo. Este que relembro agora é um dos clássicos do período áureo da explotation turca. O bom é que ele existe em versão legendada. Infelizmente são muitos os filmes de lá que ainda permanecem inacessíveis pela ausência de legendas. Confesso que não tenho muita paciência para assistir um filme cuja língua não compreendo lhufas. Até faço download de  um filme  chinês, filipino , turco ou alemão quando vejo que é muito interessante, e sempre pode um dia aparecer legendas para ele, mas raramente assisto-o sem não consigo legendas.  O título original em turco é "Aska susayanlar seks ve cinayet". Como só conheço uma única palavra da língua, não fazia ideia do que significaria este título. Verificando o Google pude constatar que o título inglês é literal. Todos os blogs gringos que consultei assinalam que o filme é uma cópia ou refilmagem de um giallo clássico de Sérgio Martino ”O estranho Vício da Sra Ward”, que já assisti faz muito tempo e do qual não lembro muito. Portanto nenhuma comparação posso fazer entre o suposto original e a cópia.  Mas à exceção da língua falada pelos personagens, de algumas paisagens, nada indicaria que o filme se passa na Turquia. Não há nenhuma indicação religiosa, exotismo, os personagens se vestem à maneira  ocidental, bebem álcool, e fazem muito sexo, e por isso há muita nudez feminina ao longo do filme. Este detalhe é um aspecto que pode causar estranheza, considerando-se que o islamismo é uma religião extremamente avessa ao erotismo, como de resto o cristianismo também. Mas o fato é que o cinema turco daqueles tempos deitou e rolou no quesito da sensualidade. A maré permissiva, no entanto duraria pouco, e muitos filmes tiveram cópias destruídas pelos moralistas. Desnecessário dizer que as novas gerações turcas praticamente ignoram essa linha da cinematografia local. Nada muito diferente daqui com o cinema da Boca, objeto de desprezo e deboche por nove entre dez cinéfilos canônicos. Lá imagino que seja a mesma coisa. Tive uma amiga turca no Facebook, era apreciadora de cinema e nunca tinha ouvido falar dos filmes desse tipo. O que encanta nos filmes turcos e nesse fica bem evidente é a sensação de alucinação que perpassa por todo o filme. Essa sensação é acentuada pelos ângulos inusitados de câmera, o ritmo desconexo da trama e o erotismo exacerbado. Dir-se-ia uma viagem lisérgica, onde nós espectadores somos convidados a adentrar em  um pesadelo. Temos uma mulher casada, com um sujeito impotente, e ela ao que parece foi estuprada por um sujeito. Mas foi mesmo um estupro ou  seria simplesmente uma relação sadomasoquista? Ambiguidade. Como todo giallo que se preze a trama não faz muito sentido se tomada ao pé da letra. O que importa no gênero é o estilo sobre a substância, sempre. Aqui no caso um giallo com tempero otomano. Mehmet Aslan, diretor prolífico na cinematografia turca  assina a direção. No  elenco nomes como Kadir Inanir,Meral Zeren,Eva Bender,Yldirim Gencer. O filme pode ser encontrado no Eurotorrents e no PirateBay também.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

La Tigresa- 1969

A paixão pelo cinema reserva a cada momento descobertas ou redescobertas. Sempre fui movido pela curiosidade nessa  paixão. Acho engraçado quando  converso com amigos cinéfilos da minha geração, da minha juventude, e vejo que todos, sem exceção continuam a gostar dos mesmos filmes que assistíamos nos cineclubes, conservam as mesmas admirações, e vários sequer conhecem o cinema posterior aos anos 90. Desnecessário dizer que do passado, do cinema que lhes foi contemporâneo desconhecem aquilo que naqueles tempos nos era desconhecido. Como disse, sempre fui movido pela inquietude. Quando jovem assistia todos os filmes possíveis no cinema ou na TV sem preocupação nenhuma com pretensões artísticas. Como qualquer garoto da época adorava um faroeste, filmes de Tarzan, Santo, Zorro, Hércules e os pepluns em geral, entre outros mais. As sessões domingueiras do maravilhoso Cine Ipiranga inolvidáveis. Não sei por que, aliás, meu blog não se chama Cine Ipiranga. Seria uma boa homenagem. O imóvel continua lá na Rua Jacuí desafiando minha memória, mas agora, nada de cinema, apenas uma loja de móveis, uma piada sem graça, quase um insulto, com meu passado.  Cresci e descobri Fellini, Visconti, Godard,  cinema novo, Buñuel, o cinema americano clássico e por aí afora. Outro olhar sobre o cinema, política de autor, cinema como arte, papos cabeças noite adentro sobre estética, escolas. Durante alguns anos militância em cineclubes. O surgimento do VHS, e posteriormente do DVD , da TV à cabo, nos possibilitou descobrir o velho e o novo, mundos novos se descortinaram para mim. E de certa maneira fechou-se um círculo, um retorno aos tempos do Cine Ipiranga, um resgate. Longo introito para falar que a cada dia ainda descubro filmes, cineastas, filmografias. Impossível abarcar tudo aqui no blog, por exemplo. Seria ótimo criar blogs específicos  apara cada paixão, mas teria  que fazer um sobre cinema asiático(japas, coreanos, indonésios, turcos, tailandeses e filipinos), outro sobre noir, westerns, outro sobre exploitation, giallo, boca do lixo, cinema mexicano , a lista é grande. Quedo-me quase paralisado, essa é a verdade. O filme que relembro estava escondido há algum tempo numa pasta reservada ao cinema mexicano, objeto de minha especial predileção.   Os astecas  tiveram sua idade de ouro entre os anos 50 e 80, em todos os gêneros populares possíveis. Volto e meia assisto filmes que me impressionam pela ousadia e alucinação. Não á toa o surrealismo foi uma corrente artística que influenciou muito a arte e o cinema mexicanos. Bem, mas o  filme, para minha surpresa, não era mexicano, e sim porto-riquenho. Confundi com um filme mexicano homônimo do gigante René Cardona Jr, que infelizmente nunca encontrei. Um filme oriundo da comunidade nuyorican , os hispanos de Porto Rico que imigraram para New York. Uma cena cinematográfica breve e curiosa, do qual o filme que relembro é dos mais significativos, e com uma vantagem:  está fácil de encontrar no YouTube. Direção de Glauco del Mar, realizador de cinco filmes apenas. Perla Faith é a jovem Patrícia que sofre nas ruas do Spanish Harlem. Um grupo de mulheres, nadadoras e lésbicas a maltrata todo o tempo. O pai é um bebum. O inferno da moça só piora: o pai é morto num assalto e ela é estuprada. Menos mal que o patrão da loja onde trabalhava, um velho judeu, morre pouco depois e lhe deixa toda a herança. Da noite para o dia  ela se torna milionária. Repagina o visual, compra um clube noturno, e parte para a vingança. A única pista do estuprador e assassino era uma marca nas costas. Com a ajuda de um detetive , um gangster e um travesti  - trio realmente absurdo - percorre as academias e as ruas de NY em uma extravagante busca pelo suspeito. O policial  chega, por exemplo, a  se disfarçar de mulher para procurar o criminoso, e em uma cena particularmente bizarra, fica sugerido que ele fez um “programa” e recebeu dinheiro de um homem. As sequências em que ela revista os homens seminus nas academias são outras dignas de nota no quesito bizarro. Um filme, que merece uma conferida e vai agradar a quem aprecia um filme com personagens estranhos  e  uma trama desconexa mas sedutora.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Return of the Dragon - 1974

Bruce Lee morreu prematuramente de uma maneira controversa deixando uma legião de imitadores no cinema asiático e até em países europeus e sul americanos, gerando um subgênero da exploitation, a brucexploitation. O filipino Ramon Zamora foi um dos muitos que surgiu na cola do dragão chinês do kung-fu anos 70. Dublê, comediante e ator de renome no país quando decidiu a se  aventurar pelos filmes de artes marciais. Quando eu era adolescente a febre do kung-fu varria o Brasil e o mundo. Infelizmente naquela época não pude assistir aos filmes estrelados por Bruce Lee e tinha que me contentar com a série de TV americana estrelada pelo Carradine. Ironicamente assisti  no cinema somente a uma das inúmeras imitações, com um lutador de nome Bruce Li. Outra  roubada foi ir ao cinema e para ver um filme do lutador e dar de cara com uma simples colagem de episódios da série de TV Besouro Verde, que ele estrelou no papel de Kato, assistente do herói. O tempo passou e me desinteressei de Bruce Lee e do gênero. Confesso que até hoje mantenho o desinteresse por ambos, apesar da paixão pelo cinema asiático mais “weirdo”. Atraem-me somente os filmes de arte marciais insanos, que misturam terror ou outros gêneros, e os deliberadamente toscos, que não se levam muito a sério. O filme que relembro  tem direção do venerável Celso Ad.Castillo, um dos gigantes do cinema filipino e asiático na era de ouro. À vontade em gêneros diversos: drama, terror, artes marciais, erótico. Pena que boa parte da sua filmografia seja inacessível para nós ocidentais. Já abordei aqui há algum tempo atrás o cinema filipino, sem dúvida dos mais interessantes dos anos  60 e 70. Ilha pequena de cinematografia monumental, e que ainda continua a produzir filmes com regularidade, apesar da decadência. Ramon Zamora ,como lembrei acima ,era humorista e certamente por isso seus filmes de artes marciais abusavam do humor. Felizmente não é o caso aqui. O filme se leva a sério, na medida certa, e não tem enxertos com  o humor oriental, sem dúvida a parte mais chata do cinema daquelas bandas, para atrapalhar. Se passa ao largo das piadas mequetrefes a  violência mais delirante tem lugar cativo na trama. O herói - de nome Pylon- trucida um bando inteiro de lutadores, mas também leva surras homéricas, é quase morto, tem as mãos perfuradas por tiros e estacas, vê sua amada ser estuprada e assassinada, e parte para uma sanguinolenta vingança.  A estética do spaghetti italiano é marcante e dá um toque especial ao conjunto: a trilha sonora, por exemplo, é claramente decalcada dos temas de Ennio Morricone. Interessante pensar que o spaghetti  bebeu na fonte oriental – os filmes de samurais, especialmente- e acabaria influenciando os filmes de artes marciais posteriormente.  Para os interessados em conhecer este precursor dos filmes de Tarantino a boa notícia é que ele tem completo no Youtube, dublado em inglês.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Schamlos - 1968

Uma raríssima exploitation vinda da Áustria pelas mãos de Eddy Saller  diretor falecido em 2003 que deixou  uma obra pequena de 5 filmes apenas. Se não foi extensa nem por isso foi menos importante, além de ter nadado contra a corrente cinematográfica que imperava no país, os dramas agridoces e românticos (tipo “Sissi”, por exemplo) -, chocou pela violência, realismo e erotismo.   E seria o guru de alguns diretores como Klaus Lemke e Eckhart Scmidt, entre outros poucos. Existe hoje em Viena um Instituto Schamlos , que realizada festivais e exibições de filmes alternativos. Claro que a obra dessa turma passa ao largo do cinema alemão que ficou conhecido em todo o mundo: Wenders, Fassbinder e Herzog à frente, todos influenciados pela nouvelle-vague.  Seller pregava um cinema anti-intelectual, antes de tudo. No elenco um rosto conhecido: Udo Kier, de trajetória gloriosa no cinema europeu e mundial, aqui fazendo sua estreia. Mas quem brilha é a gata Marina Paal, sexy , amoral e perigosa.  Incrivelmente só atuou em dois  filmes e desapareceu sem deixar vestígios. Ela  é  Annabelle, uma stripper que não tem escrúpulos em trabalhar como prostituta e se deixar vender para mafiosos.  Acalenta um sonho: se tornar estrela de cinema, mas não consegue muito mais do que atuar em filmes pornográficos feitos para chantagear velhos tarados. O gigolô e amante é Pohlman (Udo Kier), um gangster medíocre, evadido de um circo onde era atirador de facas, que vive de oferecer “proteção “ a comerciantes, e quando leva cano não hesita em usar da violência mais sádica e alucinada possível. Os letreiros iniciais informam – com alguma ironia  -, que gangsteres reais trabalharam no filme. É  um detalhe que ressalta o aspecto quase de documentário do filme.  O pano de fundo onde estes seres marginais se movem é uma Viena imaginária habitada por gangsteres gays, drogas, rock, strippers, putas e bares enfumaçados onde artistas do movimento Aktionist encenam performances selvagens.  Um retrato da contracultura vienense nos anos 60. Os atos impuros e escusos da bela Annebelle acabam resultando em seu assassinato. O pai, um italiano, contrata Pohlman para caçar o suspeito do crime, um ator decadente, gay e drogado, que foi considerado inocente pela polícia e solto. Direção nervosa e febril, com influências de Lang e Fuller. Do primeiro ela é evidente nas sequências do julgamento  que remetem ao clássico ” M - O Vampiro de Dusseldorf”; do segundo a violência estilizada. “Sem Vergonha” é o título do filme, numa tradução literal. A trilha sonora fantástica de Gerhard Heinz é dado que não pode deixar de ser citado. O filme só foi reeditado em DVD há pouco tempo na Europa e deu as caras nos sites de compartilhamento, felizmente.

linK:

http://wipfilms.net/surreal-movies-collection/shameless/

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Il Demonio - 1963

Classificar um filme como obra-prima é sempre algo que exige cuidado, mas no caso desse que relembro  não há nada de audacioso pois  não estou sozinho na afirmativa, compartilhada por inúmeros críticos e blogueiros espalhados por este mundo do cinema. Como seria de se esperar é ainda  inédito no Brasil e raro nos sites de compartilhamento. Foi exibido, é verdade em nossos cinemas na década de sessenta. A obra de Brunello Rondi, fantástico roteirista de  alguns clássicos de Fellini, e dono de uma filmografia pequena como diretor- 10 filmes apenas -, é valiosa  e vem sendo revalorizada. O cinema italiano sempre nos brinda com essas surpresas fantásticas pelas mãos de diretores que tem pouca divulgação por essas bandas.  Um amigo me mostrou faz alguns dias uma longa matéria sobre o cinema italiano em uma das poucas revistas culturais que podemos encontrar nas nossas bancas. Fui lendo, lendo e não vi nada diferente do trivial que qualquer cinéfilo já sabe: neorrealismo, Pasolini, Fellini, Antonioni, Rosselini, e outros nomes batidos e facilmente citados em qualquer história do cinema. Nada de nomes como Dallamano, Bava, Polselli, Cavallone, Martino, ou mesmo um Valério Zurlini, para ficar em nomes que lá fora são conhecidos e citados. Confesso que fiquei irritado: estava diante da velha situação de divulgação do “manjado”, do canônico,  das vacas sagradas, que encontramos em praticamente todas as publicações do país.  Preguiça ou falta de conhecimento? Regurgitar informações batidas, exaltar nomes que já são ícones. O que seria do cinéfilo mais curioso e interessado senão existissem os blogs?  No meu caso particular graças ao saudoso Carlos Reichenbach em seu blog “Olhos Livres”, meu conhecimento do cinema italiano, para além dos manjados, se abriu muito com suas dicas inestimáveis e únicas. Daliah Levi, belíssima atriz israelense, em atuação magnífica interpretando Puri, uma camponesa.  Ainda  que o filme fosse uma bomba, só pela  presença  dela já  valeria assisti-lo, tal a força  e a sensualidade que injeta  de cada fotograma. O cenário é a rústica Lucânia, no Sul da Itália, região de um catolicismo primitivo, quase pagão, que guarda muitas semelhanças com o nosso Nordeste.  Dir-se-ia que a história se passa num espaço atemporal mais próximo de uma  Idade Média. Um dos raros críticos que elogiou o filme na época da estreia classificou-o como a primeira obra surrealista da cinematografia italiana. E de fato quem lembra do documentário  “Las Hurdes” de Buñuel poderá perceber alguns elementos em comum. E mais que isso o surrealismo está presente no espírito e nos temas: amor louco, esoterismo desenfreado, crítica á religião, entre outras coisas.  Temos uma história de amor desesperada e triste: Puri ama loucamente  Antônio, mas não é correspondida e é rejeitada. Aos olhos dos camponeses ela é uma bruxa, responsável pelas desgraças que assolam o povoado, e ela crê que seja o que todos pensam. A sequência  inicial é uma detalhada preparação de um  feitiço  com o qual ela pretende conquistar o amado que está prestes a se casar. “La Fiancée du Pirate” de Nelly Kaplan, paradigma do cinema surrealista, lançado em 1969, e comentado aqui no blog, guarda semelhanças profundas com o filme de Rondi. Em ambos os filmes as heroínas são camponesas que vivem isoladas, estigmatizadas pelos vizinhos primitivos e brutos e tidas como bruxas. Uma declaração interessante de Brunello Rondi ajuda entender o comportamento de Puri:  “Minhas personagens femininas expressam suas neuroses  através do corpo”. Nesse ambiente quase selvagem  onde paganismo e cristianismo se confundem, o grito de revolta de  Puri é narrado de maneira quase documental, seca e áspera. Um detalhe interessante: Rondi trabalhou com Rosselini, pai do neorrealismo. Cenas marcantes: o encontro com um rapazinho à beira de um rio; os camponeses levando as tochas pela aldeia e erguendo uma fogueira, cena que remete aos melhores momentos góticos dos filmes de Mario Bava, realizados na mesma época. De certa forma o que o espectador tem é  um tratamento mais seco da temática dos  filmes góticos em voga naquela época, realizados pelo já citado Bava, e por outros diretores. Destaque-se as sequências do exorcismo de Puri: seguramente William Friedkin e William Peter Blatty, diretor e roteirista de “O Exorcista” respectivamente, viram o filme de Rondi.  Um filme, enfim a ser  redescoberto em nosso país. Para deleite dos interessados existe uma ótima cópia legendada em espanhol no Youtube.

Link:
http://www.youtube.com/watch?v=gPcODyIjKNQ

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Blood Mania - 1970


Um  título enganoso, pois  me fez pensar que estava diante de um slasher sanguinolento (gênero que não aprecio muito), mas encontrei algo bem mais interessante do que simplesmente jorros de sangue em profusão:  Sexo softcore, melodrama, terror, thriller psicológico e comédia de humor negro no balaio, menos blood(sangue) e mais boobs(peitos). O resultado é um filme, obviamente, confuso, pretencioso e bizarro para os padrões de bom gosto.  O que claro, não é ruim. Já expressei aqui inúmeras vezes meu fascínio por estes filmes onde a insanidade parece tomar conta até do diretor. Tenho mesmo um fraco por filmes imperfeitos, grotescos  e incoerentes, onde o pulso ainda pulsa, mesmo que seja em uma única sequência. O filme foi motivo de piada na “Frightmare The Series”, um dos incontáveis programas de TV americanos que exibiam filmes B com intenções de deboche( O vídeo pode ser visto no Youtube). Uma produção da fantástica Crown International Pictures, uma das melhores produtoras de filmes Bs dos anos 60 e 70. Direção de Robert Vincent O ‘Neil,  uma carreira curta com apenas 8 filmes, diga-se passagem, quase todos ótimos.  Realizado nos tempos áureos da exploitation americana, na virada da década de 70, tempos em que o espírito de liberdade imperava até no mainstream americano. Drogas, sexo, feminismo, racismo, tratados com desenvoltura como nunca mais aconteceria, e longe da caretice do politicamente correto. O filme que relembro não tem, por exemplo, nenhum personagem que seja remotamente simpático ou normal. Todos deixariam nosso Nelson atarantado e se achando  o maior dos caretas ( que ele era mesmo, aliás). Os críticos e comentaristas do filme apontam o aspecto de “soap opera” do filme, e afinal o que temos  é o retrato singelo de uma família tratada como  uma novela das oito imoral e grotesca.  Pai incestuoso, uma filha ninfomaníaca e psicopata, a outra tola e lésbica,  e no meio o médico  inescrupuloso e com uma namorada que não hesita em transar com o chantagista do namorado para tentar livrar a cara dele. Maria de Aragon, de nome hispano, mas nascida no Canadá, teve neste filme seu papel mais relevante. Ela chegaria até a  atuar em um dos filmes  da série Guerra nas Estrelas alguns anos depois. Nessa época estava casada com Peter Carpenter, ator e roteirista do filme.  Ele é Craig , médico picareta, chantageado por um ex-parceiro, precisa arranjar com urgência 50 mil dólares, caso contrário seu passado como especialista em abortos seria revelado e arruinaria a sua carreira. Para sua sorte, ou azar, Victoria(Maria de Aragon), uma ninfomaníaca rica, que se distraia pintando enquanto o pai permanecia travado numa cama, lhe oferece o dinheiro em troca de favores sexuais. Para conseguir a grana a moça não hesita em matar o pai com uma overdose. O testamento aberto  e  uma surpresa desagradável: para Victoria apenas uma pensão semanal de 250 dólares, e toda a fortuna para a irmã mais nova. E adivinhem o que nosso herói faz? Abandona Victória imediatamente e seduz a irmã rica. A destacar a ótima trilha sonora a cargo de Don Vicent, a bela fotografia e a direção estilizada . Um filme a conferir e que pode ser encontrado no Youtube na “Frightmare  The Serie”, como disse anteriormente.

quarta-feira, 27 de março de 2013

El Triângulo de Oro (La Isla Fantasma) - 1983


Quando fazia pesquisas para escrever a resenha sobre o filme “O Inquisidor” – uma coprodução entre Peru e Argentina - tive notícias de Jairo Pinilla um diretor colombiano, e me chamou a atenção o fato dele se dedicar ao gênero fantástico. Algo inusitado : um diretor colombiano realizando filmes de gênero.  Ao lado do nosso Jose Mojica e do hermano Emilio Vieyra  um dos raros nomes que praticaram de forma mais sistemática o terror e o fantástico na América Latina.  E ,assim como nosso Mojica , filmes  realizados em condições precárias: orçamento exíguo, atores não profissionais.  Os críticos o apelidaram de o “Ed Wood colombiano”, o que pode soar bizarro ao quadrado. Para aqueles que  acham que o cinema é uma arte que exige padrões de qualidade técnica, interpretações classe “A” e nada que incomode,  que seja um afago no ego em suma, os filmes dele não serão indicados e aconselho a evitá-los. Mas se você acha que o cinema pode ser mais do que isso, que  ele deve  e pode ser ingênuo, louco, furioso, idiota, insolente irreverente, descomunal, insensato, infantil, primitivo, alucinado,brutal, então mergulhe no universo desse colombiano que ainda está vivo e produzindo  filmes modestos na terra natal. Lembrei nosso Zé do Caixão , mas o universo de Jairo também tem muito a ver com os filmes de Chico Cavalcanti e outros diretores da Boca que realizaram filmes de terror. Interessante que ele se arriscou a explorar outros gêneros, como neste filme que relembro bem mais próximo do fantástico com toques de ficção científica, do que do terror. O filme foi dublado em inglês e filmado  fora da Colômbia – no Panamá e no Caribe -, com a clara intenção de que soasse como uma produção americana ou internacional. Jairo comentaria que  o público gostou e achou que estivesse diante de uma produção japonesa! Na mesma  entrevista o diretor resumiu  a obra: “Tratava-se de uma ilha no Atlântico que era visível somente de um determinado ângulo, e dos  outros restava invisível. Na ilha havia um triângulo de ouro maciço cobiçado por muitos, mas que era, no entanto perigoso, já que todos que chegavam á ilha para busca-lo geralmente não saíam vivos”. Uma ilha perdida no oceano, um objeto, um segredo, um desejo, um sonho. Um filme em todos os aspectos único:  um “Lost” tosco, mas com a poesia  de Mélies ,Jules Verne e dos verdadeiros artistas do cinema primitivo.  Ed Wood, mas também Steven Spielberg: um crítico conterrâneo escreveu depois de ver este filme que” Jairo ,guardada as devidas proporções, era o Spielberg colombiano”. Sobre o filme ele declarou, com franqueza e coragem, que a intenção não foi  de fazer um filme de arte, como os outros diretores do  país sempre faziam, mas um filme comercial. Jairo se assumiu ingênuo (trabalho para pessoas que querem se divertir, e não gente pretensiosa , comercial sim(não pretendo fazer filme de arte),kitsch( se considerar que ser kitsch é  ser vulgar e fazer os outros se divertirem, então eu sou kitsch). Jairo tem outra tirada que faria as delícias dos que desejam esculhambá-lo: “No cinema prefiro Batman a Bergman”. Jairo, assim como nossos  Tonys, Cavalcantis , Cunhas e tantos outros ,foi mais um que se arriscou a realizar filmes para o público simples, longe das veleidades e pretensões sociológicas e artísticas. Lembrando que Jairo Pinilla foi homenageado no festival de cinema fantástico realizado em São Paulo em 2010, juntamente com seu coirmão José Mojica. Para os interessados todos os seus mais importantes filmes( a obra é pequena) estão disponíveis no Youtube, incluindo este que relembro.

domingo, 17 de março de 2013

A Força dos Sentidos - 1979


É sempre um momento muito especial  para um cinéfilo –detesto o termo, mas enfim- quando finalmente conseguimos um determinado filme que julgávamos perdido ou impossível de encontrar. As notícias que obtivera sobre a possível existência da(considerada) obra-prima de Garrett terminavam invariavelmente em um beco sem saída. A Cinemateca Brasileira tem uma cópia, mas segundo um amigo me confidenciou, sem uma parte da banda sonora, o que impede qualquer exibição em um Canal Brasil, por exemplo; a edição em VHS sequer fora comercializada nos anos 80; enfim, já me dera por vencido e desistira de um dia assisti-lo. Cheguei a escrever para um blogueiro e jornalista, que pelo comentário  postado sobre o filme conhecia e tinha uma cópia, mas nunca obtive a gentileza de nenhuma resposta à minha solicitação, ainda que fosse negativa. E eis que um dia desses aparece no Facebook um anúncio do diretor Claudio Cunha – que felizmente é amigo virtual - oferecendo os filmes que dirigiu e o filme do Jean Garret, que foi produzido por ele, estava ali no meio da chamada. Parecia um trote de sádico, mas não era: mensagem trocada, dinheiro enviado, e enfim o sonhado e ansiado filme diante de mim. Não tenho a pretensão de fazer uma elucubração crítica sobre ele.  O meu espaço virtual  é ameno e  trivial. Convencer um eventual leitor a se interessar pelo filme já me terá deixado feliz. Jean Garrett é para mim um dos melhores diretores brasileiros de todos os tempos. E depois de assistir a este filme só confirmei o pensamento, apesar de ainda continuar  achando que “A Mulher que Inventou o Amor” seja melhor. Só revendo-o para tirar a boa dúvida. Felizmente as obra da Boca do Lixo tem recebido mais atenção de alguns anos para cá. Mas sou testemunha de que nas minhas rodas de amigos cinéfilos quando toco em nomes de diretores como Garrett, Chico Cavalcanti, Tony Vieira, Fauzi Mansur ou outros, simplesmente zombam e debocham de mim. Lendo o maravilhoso “Mondo Macabro” de Pete Tombs, livro também que só consegui com muito esforço ( e mesmo assim em versão digital), achei interessante uma observação sobre esta questão de recepção crítica á obras que fogem do padrão cinéfilo “cinema de arte de qualidade” que predomina entre nós. Curiosamente vejo que esta é  uma tendência que predomina nos países de cinematografias periféricas. O comentário de Pete Tombs se referia ao cinema argentino, e caberia perfeitamente à realidade brasileira. Lá como cá cineastas que  não rezaram pela cartilha cinema de “qualidade” artística (diga-se passagem que os Hermanos fazem este tipo de cinema muito bem, ao contrário de nós )são menosprezados. Um dia desses conversando com amigos, por exemplo, um deles se referiu a mim como um amante do cinema argentino, o que despertou o interesse  de outro na mesa, mas quando citei os nomes de Vieyra, Armando Bó e outros, vi apenas uma cara incrédula: nenhum deles ele sabia da existência. Boa parte dos cinéfilos tem como parâmetros de qualidade filmes referendados pela crítica francesa dos anos 60, que tenham temática séria e adulta, que não tragam conteúdo erótico de mau gosto, e claro, que tenham interpretações excelentes dos atores, trilhas sonoras classudas , temáticas  preferencialmente de esquerda, de cunho social e otimistas. O sucesso do  recente filme francês “Os Intocáveis”, é um bom exemplo, creio. O cinema, enfim, enquanto arte esnobe, excelsa, afetada e para eleitos. O português Garrett trabalhou sempre dentro de uma linha de produção dirigida ao público popular, mais “baixo” possível, aqueles que só queriam mesmo ver mulher pelada gostosa, bater uma punheta e esquecer a vida miserável que levava nas grandes cidades ou pequenas.
A crítica mais comum feita à obra de Garrett seria de que seus os filmes eram pretenciosos e afetados – pela utilização de músicas clássica na trilha, e diálogos supostamente “ridículos e pedantes”. Um crítico famoso na época ironizou o fato do personagem escritor buscar refúgio em uma ilha sob a alegação de que isso era uma ideia impensável num país onde não existiria escritor profissional.  Gostaria de, aliás, de saber se este “crítico” comentou “A Menina do Lado” de Alberto Salvá, outro filme que gosto muito, e que também é sobre um escritor refugiado em uma ilha deserta. Dentro dessa lógica quase toda a  cinematografia mundial teria que ser eliminada da face da Terra por inverossimilhança. Seria divertido se não fosse grotesco a suposta observação. Para mim- que não sou crítico-  justamente o que me agrada na obra do diretor é esta tentativa de pretensão e elegância, sem perder, no entanto o foco no popular. “A Força dos Sentidos” é sofisticado sim, tem narrativa sinuosa, carregada de ambiguidade e sem nenhuma referência imediata á realidade nacional. A trama poderia se passar em qualquer lugar, pois ela pertence ao terreno do fantástico mais puro.
Meu gênero literário favorito sempre foi a literatura fantástica – de certa forma considero que  obra é  fantástica  em sua essência. Nada mais óbvio, portanto, que também me atraia o cinema de cunho fantástico em todas as suas variáveis. Uma pena que o gênero foi pouco praticado no país tanto no cinema quanto na literatura.  Garrett , um dos raros  cultores do gênero, dentro de um modelo bastante pessoal, muito distante de um Mojica, por exemplo. Surpreenderam-me, no filme, as evidentes semelhanças com obras do cinema mundial anteriores e posteriores: Os roteiristas – Garrett e Koszpeky – conheciam “Carnival of Souls”? Não acredito, mas tudo é possível; e  o que dizer de “Sexto sentido” e “Os Outros”, dois filmes marcantes recentes  que trazem igualmente similaridades curiosas com o nosso obscuro filme nacional? Uma crítica honesta publicada na época lembrou “Os Inocentes”, clássico inglês de Jack Clayton, o que faz sentido remotamente. O fato é que é, talvez ,o  filme mais impregnando pela atmosfera do fantástico em toda obra do diretor, e talvez de todos os filmes brasileiros do gênero. Nada do que se desenrola na tela, percebemos nas sequências iniciais, é real. O espectador é imediatamente convidado a mergulhar no terreno do fantasmagórico e do imaginário. Está claro, Garrett não esconde que há algo errado em toda a situação vivida pelo escritor. A estupenda fotografia de Carlos Reichenbach – que ele considerava a melhor que fez em toda a carreira como fotógrafo – acentua com planos maravilhosos o clima opressivo  e sombrio. Em suma: que bom, que esta obra pode ser apreciada novamente por todos. No site do diretor e ator Claudio Cunha o filme pode ser adquirido www.claudiocunhaproducoes.com.br

terça-feira, 5 de março de 2013

Symptoms - 1974

José Larraz é um diretor já conhecido pelos admiradores do cinema exploitation europeu, graças ao fabuloso e sexy “Vampyres”, que sinceramente não sei se ganhou edição em DVD no Brasil. Provavelmente não. De qualquer maneira este filme e outros da sua filmografia já mereceram resenhas nos blogs nacionais, e muitos são encontráveis sem dificuldades em sites de compartilhamento ou no Youtube. Já lembrei que este último tem se revelado uma ótima fonte de filmes raros e obscuros. Tenho me surpreendido com certos filmes que pesquei no canal. O conselho é que corram e peguem o que puderem, pois logo esta festa vai acabar, suponho. O filme que relembro não é mais badalados na filmografia, talvez por estar ainda inédito em dvd e só circular em edições piratas, todas provenientes de uma exibição em 1983 na TV Inglesa. Uma pena, porque é um dos melhores da filmografia do diretor, e muitos até o consideram tão bom quanto o citado "Vampyres". Com ele Larraz concorreu no Festival de Cannes em 1973, e dizem que Jack Nicholson, membro do júri na ocasião , declarou que o filme era uma obra-prima e merecia a Palma de Ouro. O fato é que isso não aconteceu e o diretor, decepcionado, ficaria três anos sem dirigir. Em entrevista Larraz se declarou antes de tudo um romântico e um apaixonado pelos “tebeos”,os quadrinhos espanhóis, aos quais se dedicou antes de entrar para o cinema. No início da década de 70 o diretor iria para a Inglaterra e realizaria quatro filmes para produtores locais. Curiosamente todos lançados no mesmo ano de 1974. Assim como em "Vampyres" temos duas mulheres, uma mansão isolada e um ambiente rural. Mas o que é sangue, sexo demoníaco e nudez no filme das vampiras lésbicas, é discrição, melancolia e uma sexualidade difusa e reprimida em “Symptoms”. Menos “Possessão” de Zulawski, mais para “Repulsa ao Sexo” de Polanski, com o qual, aliás, o filme de Larraz guarda algumas semelhanças, já apontadas em resenhas que li. Helen( interpretada com perfeição por Ângela Pleasense, filha do ator Donald Pleasense) regressa para sua casa no campo levando consigo uma amiga Anne(Lorna Heibrom). Leituras, música, passeios pelo bosque e de barco pelo lago, enfim, a paz absoluta e perfeita. Um furtivo beijo na boca, apenas, para o espanto de Anne, e nada mais. As noites de Helen, no entanto, passam a serem perturbadas por ruídos vindos do sótão, súbitas visões de uma mulher, Cora, uma amiga que desapareceu, e que provavelmente morreu afogada no lago, ou teria sido assassinada? Mas o que fica claro é que Helen, além de profundamente perturbada pela lembrança da amiga -e paixão sáfica certamente- , tem uma sexualidade reprimida e histérica. A atmosfera sombria e melancólica emoldura uma trama monocórdica, minimalista e ambígua onde fantasia e realidade se chocam e se confundem -, mas plena de tensões e pulsões prestes a explodirem. O resultado é uma pequena obra-prima de câmara como um quarteto de cordas ensaiando um concerto de desejos vulcânicos. Mas como foi dito por um crítico inglês o mistério não está na trama – que é quase óbvia –mas nas nuances e na textura da narrativa. Há que se ressaltar a excelente montagem, a cargo de Brian Smedley- Aston, responsável por “Performance” de Cammell e Roeg. O filme tem completo no Youtube.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Angel of Destruction- 1994



Este filme talvez seja outra (mais uma) desculpa – sempre esfarrapada - para lembrar uma das rainhas do filme B, talvez a maior de todas, dos anos 90. Maria Ford, que está na casa dos 50 agora, e ainda em atividade na TV, ganhou lugar cativo nos fãs com uma série de filmes baratos, rápidos, geralmente de ação, erótico, terror, ou ficção científica. Generosamente sempre fez questão de mostrar os atributos quando assim exigia o roteiro. Outro detalhe: ela entende mesmo de artes marciais e não dubla suas cenas, além de ser excelente dançarina( foi stripper em Las Vegas). Boa parte dessas produções Bs ,onde atuou ,foi realizada diretamente para o mercado de vídeo. Os anos dourados da grindhouse e exploitation já eram lenda nos anos noventa, mas o surgimento do VHS deu sangue ao filme B na Itália, EUA e outros países. E nesse contexto que se situa este filme que escolhi para lembrar essa lourinha gata brava . Ainda não vi todos os filmes que estrelou (devo ter uma dezena ou mais), mas pelo título resolvi arriscar e confesso que me diverti bastante. O filme como ele pode ser visto hoje pelo espectador surgiu de um contratempo sui-generis. Inicialmente seria estrelado por Charlie Spradling, que interpreta a irmã da personagem vivida por Maria Ford. Porém como ela não aceitou fazer uma cena em que tinha que lutar vestida só com uma calcinha os produtores decidiram “matar “ seu personagem, reescreveram o roteiro, e convocaram Maria Ford, que se tornou a heroína da história. A trama recicla dois sucessos da produtora de Corman : “Angelfist”, dirigido por Ciro H. Santiago, e “Blackbelt” do mesmo diretor desse filme, Charles Philip Moore. Na verdade é quase uma refilmagem desse último realizado dois anos antes. Como não curtir um filme em que a heroína é obrigada a enfrentar um bando de vilões vestida apenas com uma sexy calcinha vermelha? A cena, aliás, lembra a sensacional sequência do “pink” japonês “Sex and Fury” com Reiko Eike lutando completamente nua, sob a neve. Foi esta a sequência que motivou o quiproquó com Charlie Spradling, diga-se de passagem. Em mais de um sentido este filme revela influências do cinema oriental dos anos 70 japonês e de Hong Kong. Como nos gloriosos anos setenta as filmagens foram realizadas nas Filipinas, com produção do grande Ciro H.Santiago e Roger Corman. Maria Ford é Jo, uma policial, cuja irmã Britt - uma policial durona também – é brutalmente espancada e morta por um brutamonte. Claro que ela parte então no encalço de Bobby, o psicopata frio que matou a irmã, e que colecionava corpos de mulheres como quem colecionava filmes vagabundos: depois de fazer sexo com as incautas -vestidas de noivas- as matava com porradas e arrancava o dedo onde previamente colocara um anel de noivado. Muito singelo, mas considerando que ele era um mercenário ex-combatente do Vietnã, perfeitamente explicável. Para chegar até este simpático sujeito nossa heroína e musa mergulha no universo do showbusiness fuleiro, com cheiro de fracasso, quase da prostituição. No centro desse mundo tosco encontra Delilah(Jessica Mark) uma cantora bissexual que realiza um show strip lésbico & sadomasoquista, que já não atraia quase ninguém. Era sustentada por um gangster gordo e escroto cujos negócios incluíam tráfico de drogas, proxenetismo e outras coisitas mais, além de uma gravadora. Jo vai trabalhar como guarda-costas da artista. O psicopata nutria uma fixação doentia pela cantora e além de segui-la mandava-lhe presentinhos que incluíam dedos decepados. Mais romântico impossível. Outro momento estupendo acontece: ameaçada pelo vilão, que rapta a namorada e partner da cantora, Jo é obrigada a fazer um número de strip-tease. Nonsense e divertido. Ao que parece boa parte dos filmes de Maria Ford incluem cenas assim ou se passam nesse ambiente, pelo que constatei. Policial disfarçada de stripper, aliás, seria quase um sub-subgênero da exploitation tal a quantidade de filmes realizados nos anos 80 nessa linha. Mas o gênero do filme é mesmo “gostosa pelada com uma pistola fumegante”. E dentro dessa linha o filme é uma ótima e deliciosa farra. Observando o ano do filme constato que este é, provavelmente, o mais “novo” que resenhei aqui no blog considerando o ano em que foi realizado. Para os interessados existe ele no pirate bay: http://thepiratebay.se/torrent/6936728/Angel_of_Destruction_(1994)___Maria_Ford__

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

La Lupa Mannara - 1976


Um filme que filme assisti pela primeira vez em uma edição americana, quando morava nos EUA e veio num pacote com 50 dvds a preço irrisório. Por lá essas edições são comuns: geralmente são amontoados de filmes cujos direitos autorais venceram. Com preço tão baixo é natural que no bolo se salvem digamos assim a metade, e a qualidade é o item pior infelizmente, principalmente quando se trata de filmes europeus os anos 60 e 70.´É o caso desse dublado em inglês e cheio de cortes. Felizmente obtive a versão integral e pude apreciar mais uma vez a esplêndida Dagmar Lassander, além da pouco conhecida Annik Borel. E o bom é que tem no youtube. Corram enquanto ainda está lá. O acervo do canal está excepcional, apesar da qualidade não ser perfeita em alguns casos, mas no caso desse filme a cópia é de boa qualidade e parece que sem cortes. Metragem em filmes europeus dos anos 70 é um problema sério, controverso, e renderia artigos. O diretor é o subestimado e esquecido Rino Di Silvestre, um dos maravilhosos e mais obscuros “picaretas” da geração de ouro do eurotrash italiano. Infelizmente as oportunidades na direção foram poucas - somente 8 filmes-, o que não o impediu de deixar ótimos e absurdos filmes em gêneros variados. Este o único que obteve certa ressonância. O tema da licantropia foi bem explorado por espanhóis, eslavos, mexicanos e americanos com contribuições interessantes à lenda do bichão. Mas os italianos que tanto fizeram pelo horror e fantástico, a partir de Bava, Polselli e outros, deixaram o lobo de lado. “En Passant”, não recordo se os ingleses abordaram também o tema. O título da versão americana tenta enquadrá-lo na licantropia. Mas o fato é que o filme vai além (ou aquém, dependendo do ponto de vista) e o tema aparece subjacente. A heroína, a mulher loba, do título é a francesa Annik Borel, de carreira efêmera no cinema europeu(10 filmes no total). O diretor declarou que só a escolheu para o papel pelas feições que lembravam uma loba. Uma bela mulher, e que se tivesse encontrado um Jess Franco teria alcançado maior destaque na galeria das divas do exploitation. Mas e o filme, é ou não é de lobisomem? Bem, o início, após uma abertura sensacional com uma mulher dançando nua em volta de uma fogueira, parece que vai enveredar por mais um terror gótico de época, que fez glória do cinema italiano. Surgem então os camponeses, aprisionam a mulher lobo e a mandam para a fogueira. Os tempos não eram fáceis para quem escolhia meios alternativos de vida. Salto para a idade contemporânea e encontramos Daniele, descendente da mulher-loba, riquíssima, morando com o pai em um castelo no campo. A irmã, interpretada por Dagmar Lassander, aparece para a uma vista em companhia do marido, e então o espectador começa a se dar conta que a moça não regulava muito bem e apresentava sérios problemas de sexualidade. Para os psicanalistas, a definição seria uma histérica. Estuprada aos 15 ,tomara aversão ao sexo, sem, no entanto deixar de ter uma fascinação voyeurística pela coisa.Para complicar ela se julgava possuída pelo espírito da antepassada e não tarda em mostrar as garras, sendo o cunhado o primeiro objeto de consumo a ser estraçalhado numa noite de lua cheia. Segue-se uma internação, choques, camisa-de força- o trivial da psiquiatria cinematográfica- até a fuga, não sem antes cometer outra morte. E o inesperado acontece na trama e na vida da nossa, digamos, heroína: conhece um sujeito legal, dublê, e que morava, numa cidade fantasma, de fato um velho set de westerns spaghettis abandonado .E pela primeira vez ela se entrega e descobre o amor, a loba se despe da pele e se transforma numa mocinha boa, carinhosa e que ficava cuidando da casa enquanto o lover trabalhava. Mas felicidade será infelizmente estragada por um trio de malandros, que estupram Danielle e matam namorado. Não é spoiler ! Como se percebe pela sinopse está claro que Rino Di Silvestre colou uma série de gêneros exploitations em um só filme, sem muito nexo. O resultado não poderia deixar de ser desigual. E daí? Pergunto eu. Com todos os prós trata-se de uma legítima tosqueira fascinante e deliciosa. Para os fãs de Tarantino assinalo que o filme foi exibido no festival organizado pelo cineasta em 1996, na cidade de Austin, no Texas, em uma exibição surpresa à meia noite. O sucesso foi tanto, que a partir de então a sessão passou a ser apelidada de “sessão da mulher loba”.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Adrift aka Touha Zvaná Anada - 1970

Em meus passeios pelas cinematografias de países tidos como periféricos ou exóticos ainda não tinha me aventurado aqui no blog pelo cinema do leste europeu. Um pecado, tendo em vista que gosto demais dessa outra Europa: cinema polonês (Zulawski , Has e outros), húngaros, tchecos, romenos, russos e companhia ltda. Janos Kadar foi nome dos mais importantes do cinema do leste europeu. De origem húngara, realizou filmes na antiga Checoslováquia, um deles era exibido regularmente nos bons tempos dos cineclubes: “A Pequena Loja da Esquina”. Filme tido por muitos como o melhor de todos os tempos na cinematografia Tcheca. A invasão russa liquidando coma Primavera de Praga e o forçou a imigrar para os EUA. Boa parte dos seus filmes foram , na verdade, dirigidos em parceria com Elmer Klos. É o caso desse aqui que relembro, e do qual nunca tinha ouvido falar até pouco tempo. Aliás, encontrei poucas referências na rede sobre o filme. Mas curiosamente ele é facilmente encontrado(ainda) no youtube, em cópia legendada em inglês. E que tudo indica a única. Pelo visto o filme não se popularizou ao contrário de outros exemplares gerados na new wave checa nos anos 60, que revelou Milos Forman, entre outros nomes. Qual a razão? Creio que é um filme que não se enquadra no modelinho pseudo-social que era apreciado pelos cinéfilos brasileiros cineclubistas nas décadas de sessenta e setenta, ao contrário dos filmes de outros filmes da Primavera de Praga. É só uma hipótese, que fique bem claro. O filme passa ao largo de questões políticas da época, privilegiando o erotismo em uma narrativa experimental. A trama é ambientada em uma realidade contemporânea, pois há uma cidade moderna e urbana, mas os personagens se movem em uma região rural, primitiva ,quase mágica e, obviamente, irreal já naquela época. Baseado em um romance clássico da literatura húngara do autor Lajos Zilahy, infelizmente ainda inédito  em português, e levado ao cinema anteriormente nos anos 40, diz a wikipedia. As filmagens foram interrompidas pela invasão soviética em 1968 e só retomadas posteriormente na Suécia já em 1970. A estreia somente em 1971 nos EUA, sem repercussão. Uma história repleta de percalços que contribuiu muito para o seu olvido. Um detalhe curioso na produção: foi uma parceria tcheco-americana, fato incongruente. Isso explica provavelmente a presença no elenco de Paula Pritchett, playmate e modelo de vasta,fumegante e devastadora (sobram adjetivos) beleza, aqui em seu único papel principal. A Afrodite só participou de dois outros filmes, e mesmo assim como figurante.
Ela é a Anada, do título original Tcheco, uma mulher que surge das águas do Danúbio, qual uma sereia, misteriosa, e falando uma língua desconhecida. Yanos (Rade Markovic), um rude pescador a salva das águas e a leva para casa. A esposa, a bela e simples Zuska (Milena Dravic) a acolhe com simpatia. E o triângulo amoroso não demora a acontecer. Em linhas gerais é esta a trama. Mas o que fascina e encanta no filme é a desconstrução narrativa, sutil, que deixa margens à ambiguidade de toda a história narrada em flashback pelo pescador Yanos. Até onde vai a verdade? Não seria tudo uma patranha de bêbado contada numa roda de fogueira aos amigos camponeses? E quem era Adana? Zuska e ela teriam uma relação sáfica? Ana teria também um affair com o playboy local? E o filho do pescador, não seria ele que teria uma relação homossexual com este mesmo playboy? Poético, experimental ( mas nunca chato, que fique bem claro) em sua narrativa quase circular e absolutamente fascinante. Outro destaque fica com a excepcional trilha sonora de Zoenek Liska. Como eu disse no início da resenha: o filme está disponível no youtube, completo, com legendas em inglês.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

The Muthers - 1976

Ciro Santiago(falecido em 2008) foi um dos gigantes do cinema exploitation entre os anos 60 e 70. Filipino, trabalhou com Roger Corman e Jonathan Demme entre outros. Produziu 79 filmes e dirigiu 77. O homem tem importância capital em vários subgêneros da exploitation. O maior estúdio cinematográfico filipino foi fundado por ele e está em franca atividade. Vou repetir o que já escrevi aqui antes: a indústria cinematográfica da pequena ilha asiática, colonizada pelos espanhóis, foi uma das mais prósperas e originais da Ásia. Diante de tantos filmes que Ciro dirigiu a escolha deste para lembrar aqui no meu cantinho inóspito se deve ao fato de que foi o último que andei assistindo nessa semana, e além do mais me divertiu à beça. Na verdade é um bom crossover de diversos gêneros que praticou da exploitation, o que o torna um filme digno de nota. O elenco feminino tem um punhado de beldades blacks que atuaram e ainda atuam: Jeannie Bell ,uma das rainhas da Blaxploitation , estrelou o clássico “TNT Jackson”, também dirigido por Santiago; Rosanne Katon- outra estrela negra da exploitation, apareceu na Playboy; Trina Parks ,foi Bond Girl em os “Diamantes são eternos”, e salvo engano também posou nua na revista do tarado Heffner; a quarta estrela do elenco, Jayne Kennedy, também deixou sua marca pela beleza. A trama , como disse, é uma suma de alguns subgêneros que fizeram a exploitation nos anos 70.
Começa como um filme de piratas moderno: o barco pirata “Muthe”, liderado por duas mulheres, ataca e rouba um barco de turistas bobos que faziam uma orgia. A irmã de uma das piratas desaparece posteriormente e na busca por ela recebem a notícia de que a moça estaria em uma prisão feminina, que também era uma plantação de café. Então o filme vira um WIP típico: um monte de mulheres maltratadas em uma prisão em plena selva, e o comandante sádico, aqui no caso, um bissexual enrustido. Vem então a inevitável fuga pela “jungle”, com os soldados no encalço das moças que escaparam, lutas de kung-fu, tiroteios e explosões. Uma trama movimentada e cheia de reviravoltas até o fim. A trilha groovy garante o clima blaxploitation . Para os que ficaram curiosos a dica é que existe o filme completo no youtube, sem legendas infelizmente. A chance desse filme sair em DVD por aqui algum dia é ,digamos assim, zero. O que no final das contas não tem nenhuma importância, talvez.

domingo, 20 de janeiro de 2013

El Asesino de Muñecas - 1975

Épater la bourgeoise”, velho lema francês que durante muito tempo fez sentido. Os poetas decadentistas do séc. XIX o tinham como profissão de fé. Espantar, assustar e impressionar os burgueses sempre. Os movimentos de vanguarda do início do séc. XX - surrealistas e dadaístas -seguiram com a bandeira. Neste início de séc.XXI nada mais causa espanto e a burguesia é só uma lenda urbana. No nosso imergente país - que muitos acham que é emergente - temos a classe C com seus funks , imprecações e urros pentecostais e corrida aos shoppings para adquirir o último gadget nos fins de semana. Tergiverso em demasia. Estamos a falar de um filme espanhol dos anos 70. O filme que Lúcifer teria produzido caso ele se aventurasse pelo cinema; dos mais afins, que tive oportunidade de ver, do espírito de Isidore Ducasse, o Conde de Lautreamont. O filme surrealista por excelência. Bem dentro do espírito espanhol, é verdade. As obras de Almodóvar e Bigas Luna certamente devem algo a este filme maldito, execrado e amado pelos “happy few”. Quando colecionava e devorava HQs europeias me impressionavam os autores espanhóis pelo humor cáustico e iconoclastia. É curioso observar que muitos cineastas ibéricos foram roteiristas de tebeos (os quadrinhos espanhóis), casos do citado Almodóvar e de Amando de Ossorio, entre outros. Miguel Madrid rodou somente três filmes. Este que relembro foi o segundo e o mais significativo. Não assisti ainda aos outros filmes que dirigiu, estão aguardando na longa fila. Ele foi roteirista de um filme que comentei aqui no blog há algum tempo: “As Amantes del diablo”. O próprio Miguel (que assinou o filme com o pseudônimo de Miguel Skaife) aparece no início anunciando a intenção da obra: um retrato de um psicopata, vítima da dupla personalidade. Paul (David Rocha) é um jovem estudante de medicina: péssimo aluno, expulso da escola (“tremendo desse jeito você será apenas um açougueiro”, diz o professor profeticamente ). Ironicamente tem aversão ao sangue. Os pais são jardineiros de um parque privado. Neste espaço bucólico, frequentado por casais de namorados e hippies, Paul exercita o assassinato como uma das belas artes, usando uma máscara de boneca e peruca (uma óbvia influência do giallo italiano). A proprietária do parque é a vistosa condessa Olívia, uma ninfomaníaca - interpretada por uma das rainhas do eurotrash dos anos setenta, Helga Liné - que ao conhecer o efebo convida-o para dormir em seu castelo e tenta seduzi-lo, sem sucesso. Paul não tinha, digamos assim, um interesse especial por mulheres. A mãe o criara como uma menina, obrigando-o a brincar com as bonecas da irmã morta antes de nascer. Além desse perfil andrógino a amizade com um garotinho chato que sempre brincava no parque possuía claros sinais de pedofilia. Outras perversões podem ser encontradas neste coquetel bizarro de insanidade como necrofilia e estatuofilia( tara por manequins) além da já citada pedofilia. Mas ocorre um encontro inesperado: conhece Audrey (Inma de Santis), a doce filha da condessa. A atriz Inma de Santis tinha menos de quinze anos de idade quando atuou neste filme rodado em 1973, e só lançado em 1975, obviamente sem sucesso algum. Interpretação histriônica e afetada de David Rocha - que depois chegaria a atuar com Luís Buñuel em “Esse Obscuro Objeto de Desejo”- beirando o paroxismo.
Obra desigual, excêntrica caótica e das mais delirantes e dementes da história do cinema ibérico. Daí o seu fascínio e sedução. Para driblar a censura franquista o diretor usou uma tática comum aos cineastas espanhóis da época: a ação se passava em um país estrangeiro, aqui no caso na cidade francesa de Montpellier. O filme foi rodado, no entanto, em Barcelona e Sitges. Falando nesta última localidade duas curiosidades: lá se realiza um excelente festival de cinema fantástico, e o fundador deste faz uma ponta no filme.