segunda-feira, 23 de julho de 2012

Belas e Corrompidas - 1977

Fauzi Mansur é um bom exemplo de diretor cuja obra transcendeu os limites da Rua do Triunfo, cenário da Boca do Lixo, infame para muitos, e tem lugar cativo na lista dos melhores diretores brasileiros de todos os tempos. Quando digo limites, não me refiro só ao espaço físico, mas aos limites conceituais onde os filmes nascidos na região ao redor da rua do Triunfo foram confinados e marcados: o rótulo pornochanchada e a imagem trivial de mau gosto, para dizer o mínimo. O primeiro detalhe que chama a atenção na obra desse diretor de origem árabe é a variedade de gêneros: comédia, terror, drama histórico e erótico entre outros. Não conheço infelizmente todos os seus filmes, já que vários são impossíveis de conseguir e podem estar perdidos até, mas todos os que tive o prazer de assistir me dão a certeza do vigor de sua obra. Entretanto não me aventurara pela obra do diretor nos anos 80 e 90, mais restrita ao terror e filmes de sexo explícito. O gênero terror é raramente praticado no país, e de resto o cinema de gênero em geral. Cinema sem medo da inocência e do prazer sem culpa. Breve tergiversação : um dia desses revi o fantástico “A reencarnação do Sexo” do colega da boca, Luiz Castellini e recentemente lembrei aqui o “O Estripador de Mulheres”, que já descamba mais para um mix de terror e humor. No fim de semana por um acaso do destino consegui “Karma”, de 1984 e “Atração Satânica” de 1989, dois exemplares dessa fase tardia do diretor. O primeiro resolvi encarar nesse fim de semana e me deixou ,mais uma , vez perplexo. Os filmes de Mansur tem essa capacidade, para o bem e para o mal. Provavelmente filmado em 16 mm e presumo que não tenha sido exibido nos cinemas:o mais certo é que tenha somente ganhado edição em VHS, como os outros filmes dos anos 80 de Fauzi, visando, sobretudo o mercado externo e as locadoras. Um filme desigual, bárbaro, brutal e insano. Uma história de fantasmas e casa mal assombrada filmado no limite do risível, em alguns momentos, mas sem perder o fascínio. Um filme apocalíptico, de narrativa elíptica e densa. Interpretações toscas: nada espantoso considerando-se que boa parte do elenco tinha mais experiências em filmes pornográficos. Um filme casto, diga-se de passagem, no quesito sexo. Para efeito de comparação resolvi rever o citado “Belas e Corrompidas” de 1977. A lembrança que tinha era a melhor possível e confesso que ao revê-lo a impressão foi ainda melhor. Afirmações categóricas são sempre perigosas: mas por que não afirmar que este é um dos 10 melhores filmes brasileiros de todos os tempos? Seria tachado de imbecil por muitos. Mas, ok. Faço a afirmativa: “Belas e Corrompidas” é uma obra-prima e numa lista que eu fizesse – e que nunca farei - dos meus filmes brasileiros favoritos seguramente estaria entre os dez ou vinte mais. Alguém realizou uma enquete desse tipo na net dos piores e melhores. Ambas as listas triviais nos títulos de modo geral, com honrosas exceções. Divertidos e ilustrativos mesmo foram os comentários de leitores sobre as listas: todos, sem exceção esculhambando os filmes nacionais eróticos dos anos 70 e clamando por uma suposta qualidade visual e de bom gosto. “Karma” teve exibição no canal Brasil, quanto a “Belas e Corrompidas” não tenho certeza. A cópia obtive há tempos no desaparecido Putrescine. Maria Isabel de Lizandra, em seu momento supremo no cinema, no papel de uma serial killer sexy e infernal. Humor negro, dionisíaco, debochado e anárquico.
Um roteiro sinuoso e com a precisão de um relógio suíço escrito por Marcos Rey e o próprio Fauzi: um personnagem some, a situação parece que deriva, e de súbito tudo ganha sentido. Uma trilha sonora singular - montada por Carlos Reichenbach misturando soul music e Wagner, entre outros sons. "Karma " também compensava os efeitos especiais pobres, com uma ótima montagem sonora. E por falar no grande Carlão – que nos deixou tão cedo -, ele atua como um cego louco e tarado de nome Igor, que tem um caso com a criada –corcunda – da bela assassina; e temos Heitor Gaiotti, parceiro de Tony Vieira, como um ex-presidiário que vai trabalhar de jardineiro na mansão da mulher fera. Thomas de Quincey e seu “Do assassinato como uma das belas artes “: cada crime da nossa heroína é sexy e requintado, operístico, rituais de dor e gozo, amor, dor e humor. E é também uma das mais belas e malditas histórias de amor do nosso cinema. Os momentos antológicos são tantos que enumerá-los me obrigaria a contar todo o filme. Detalhar todas as sutilezas visuais e auditivas, as ironias cortantes, enfim todos os meandros dessa suma poética da danação e do horror demandaria muito mais que as 800 palavras digitadas até agora. Só posso dizer aos que não conhecem esta obra-prima que corram , procurem, batalhem, mandem pedidos para o Canal Brasil ; e torçamos para que um dia alguma produtora de DVDs decente coloque em circulação uma boa cópia dessa maravilha e de outras perdidas .

4 comentários:

Fernando Rodrigues disse...

Eu não conheço muitos filmes do Mansur, mas esse eu já assisti e gostei muito.
Acho que o cinema nacional da boca está, aos poucos, sendo visto com outros olhos, embora existam por aí ainda aqueles que repetem aquela velha máxima de que cinema brasileiro daquela época era só "pensava naquilo".

fernando fonseca disse...

Todos os filmes que vi dele me chamaram a atenção; esse eu realmente classifico como obra-prima. "Noite do Desejo" também é genial.

Pedro Morais disse...

POR FAVOR QUERO MUITO ASSISTIR O FILME BELAS E CORROMPIDAS DE DO MANSUR AONDE ASSISTO ELE ONLINE NA INTERNET OU AONDE COMPRO....

Fernando Fonseca disse...

oi Pedro, ele tem pra vender no site Eu gosto de Filmes Brasileiros, deve estar custando so 5,00 reais