segunda-feira, 9 de julho de 2012

Baby Love - 1968

O título sugere algo suave e belo, como a música do mesmo nome das Supremes, que nada tem a ver com este filme inglês. Aqui a suavidade do rosto da teenager Linda Hayden, no papel da garota Luci, esconde abismos insondáveis como diria um filosofo amador de botequim. Um filme que não poderia ser produzido hoje, provavelmente. Basta pensar que a atriz tinha a idade da personagem no filme e não dispensou cenas de nudez. A caretice PC domina boa parte do cinema atual, já bati nessa tecla aqui, particularmente o americano. Creio que nem na época em que o código Hays imperava na América ele foi tão melífluo, insosso e desprovido de qualquer signo de violência e paixão como agora.A América de hoje é uma terra uniforme, monótona: quer você esteja em Albany, Baltimore ou Lowell, verá as mesmas paisagens intermináveis desoladas – pois só se veem automóveis, você não vê gente - centros comerciais gigantescos entulhados de macdonalds, wallmarts e outras marcas mais. Ad infinitum. Lá como cá os centros das cidades viraram terra de ninguém. Estou generalizando, é claro. Cinemas de rua desapareceram, drive-ins por incrível que pareça ainda existem alguns. Bem, aqui também estes existem aos montes, mas não exibem filmes e servem apenas para sexo rápido. Nosso país é mesmo uma paródia monumental da alma – ou da ausência dela - americana atual. Perdoem meu falatório e leiam o interessante livro “Mainstream” do francês Frédéric Martel, que fala dessa América e de muitas coisas mais sobre a indústria cultural, incluindo até a máquina de fabricar debilóides que é a nossa rede maior de Televisão nacional, e motivou essa introdução irritada. O cinema inglês, praticamente não existe mais, quase que totalmente atrelado ao cinema americano. A Hammer retoma as atividades, é fato, mas com um filme deveras fraco “The Woman in Black”, muito longe dos seus bons tempos. Nos anos 50 e 60 havia um trânsito e muitos atores americanos quando entravam em decadência buscavam o último suspiro na ilha.
Politicamente Correto, caretice, centros comerciais, cinemas de rua, decadência de centros de cidades americanas e brasileiras: o assunto deriva e a intenção é apenas tentar situar este irresistível, para mim, filme inglês sixtie. “Lolita” de Kubrick e “Teorema” de Pasolini, alguns comentaristas já frisaram o parentesco. Mas o filme é muito mais. Swinging London às avessas, longe do glamour da vida fashion do rock’roll. Luci(Hayden) é uma garota bela, mas de uma beleza digamos “comum” distante de uma Gillian Hills de “Beat Girl” de 1960, com o qual este filme guarda algumas similaridades, ou de uma Jane Birkin, para citar algumas inglesas. Ironicamente o filme começa com o suicídio da mãe da garota, interpretada pela atriz Diana Dors que alcançou fama como a rival inglesa de Marylin Monroe e fez até alguns filmes na América. Aqui já estava um bagulho. Já comentei alguns filmes estrelados por ela nesse blog. Simbolicamente a sexy simbol da década anterior passava o bastão para a inglesinha sapeca. Filha de uma pobre coitada alcoólatra, drogada e prostituída, um antigo amante a resgata do fundo do poço – atendendo a um pedido da mãe antes de morrer - e a leva para outro mundo: Luci no país das maravilhas.Ele era agora um respeitável médico e membro de classe média de boa vida. Família aparentemente perfeita: o marido, a esposa bonita e o filho insosso. Mais inglesa impossível. A chegada da garota provoca a abertura dos armários – a esposa se revela uma lésbica insatisfeita com o marido -, liberação das taras - o filho um voyeur, e marido, e possivelmente pai da menina, um pedófilo. A guerra surda entre as rígidas classes sociais inglesa com táticas de guerrilha sexual. Luci age por instinto, por vingança? Anjo e demônio, perversa e inocente, amoral e cínica. Os pecados e a hipocrisia de todos desvelados e colocados na mesa do chá das cinco. O tom da narrativa é seco, quase documental, árido como o universo retratado. O rock só aparece como pano de fundo. A boa direção coube a Alastair Reid, que dirigiu poucos filmes para o cinema, tendo concentrado a carreira na TV inglesa. Linda Hayden ainda está na ativa também na TV. O filme pode ser baixado sem problemas no YouTube.

2 comentários:

Unknown disse...

Passei uns 25 anos procurando por esse filme, o qual eu havia assistido na TV nos anos 80, e ficado encantada, mas não encontrava nenhuma referencia.Parecia até q ninguém mais, além de mim, havia assistido! Até q um dia consegui chegar no nome e, agora, encontro esse tão esclarecedor comentario sobre o mesmo! Obgda!

Melania Fontana disse...

Passei uns 25 anos procurando por esse filme, o qual eu havia assistido na TV nos anos 80, e ficado encantada, mas não encontrava nenhuma referencia.Parecia até q ninguém mais, além de mim, havia assistido! Até q um dia consegui chegar no nome e, agora, encontro esse tão esclarecedor comentario sobre o mesmo! Obgda!