quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Riot on Sunset Strip -1967
A AIP ganhou fama e dinheiro inundando os drive-ins com monstros, aliens, rebeldes teenagers e o que mais servisse para atrair público. Sam Katzman um dos pílares do filme B – apelidado de “King of the quickies” -e um dos meus produtores ídolos, com mais de 300 filmes no currículo, foi o responsável por essa pérola. A direção coube ao artesão B Arthur Dreyfuss: 54 filmes no currículo boa parte deles na mítica Monogram. O que temos aqui é um dos exemplares do subgênero hippie exploitation, surgido justamente no ano de 1967, sendo este talvez
o primeiro. A ficha técnica assinala a participação de hippies de verdade no elenco do filme dando um toque involuntário de humor. Os gêneros afins dos teenagers rebeldes e beats malucos já não atraíam como antes e os cabeludos foram alçados subitamente ao panteão dos monstros que apavoravam a tradicional família americana: os squares de terno e gravata e suas esposas louras dos subúrbios e seus filhinhos fofos e malas. Então o que tem o espectador é o velho combate entre as forças do bem, aqui representados pelos caretas, contra as forças insanas e demoníacas do mal travestidos nas figuras dos hippies. E olha que Charles Manson ainda demoraria alguns anos para mostrar que a paranoia tinha lá suas razões de ser. Não é improvável, aliás, que algum membro da trupe dele tenha aparecido nesse filme. Lembrando que o diretor enxertou cenas reais dos conflitos de rua que abalaram o período, o chamado Sunset Curfew Riot. A trama é embalada por uma trilha sonora sensacional a cargo dos obscuros grupos The Standells e Chocolate Watch Band . Ambas aparecem tocando ao longo do filme, e dão uma ideia de como era a cena californiana daqueles dias e de onde surgiriam The Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead e tantos outros grupos. Andy(Mimsy Farmer) filha de pais separados: a mãe uma bêbada ( Hortense Patra, esposa do produtor ) e o pai, ausente há 4 anos, o delegado responsável pelo patrulhamento na região de Sunset Boulevard durante os conflitos. Por ironia do destino é ele o encarregado de dar uma batida policial na festa de arromba e chegando lá encontra a filha chapada e nua na cama, depois de ser currada pelos hippies e beats doidões da sua turma.
Sexo, drogas e rock and roll . A sequência da festa antecipa de alguma maneira a insanidade de “Beyond the Valley of Dolls” de Russ Meyer. Já eram outros tempos.O recente livro lançado aqui no Brasil ”Popcorn” de Garry Mulholland que pretende listar os filmes básicos da história do rock, no ponto de vista dele naturalmente, o ignora solenemente. Os prefaciadores nacionais, um deles o Kid Vinil, também não o lembram. Foi justamente a leitura do livro que me despertou a curiosidade em assisti-lo, o que não deixa de ser irônico, considerando que, como eu disse, o filme é solenemente ignorado nele.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Morbus - 1983
Outra contribuição espanhola ao gênero de zumbis. Mas não é só: trata-se de um delírio estapafúrdio que nosso Ivan Cardoso, caso fosse espanhol, teria assinado com prazer, pois mais que um filme de terror puro estamos diante de um “terrir”. Humor e terror, e muito, muito sexo. Disse espanhol, mas para ser mais exato deveria dizer que a origem do filme é catalã. Não é de modo algum um filme para ser levado muito a sério. A narrativa é desconjuntada, titubeante, as interpretações são bisonhas em sua maior parte: suspeito que os zumbis estivessem participando da produção. No elenco nenhuma cara muito conhecida. Mas a estrela do filme, Carla Dey, teve alguma notoriedade na década de 80 em filmes eróticos. Retirou-se do cinema pouco depois desse filme e a última notícia da bela é que estava vendendo material farmacêutico. Para o deleite dos tarados ela passa boa parte do filme nua. Espanha e Brasil guardam algumas semelhanças cinematográficas. Ambos viveram um longo período sob ditaduras, no caso do país europeu até mais longa, e quase ao mesmo tempo se livraram delas com reflexos no cinema. Em 1976 Franco finalmente foi fazer companhia ao diabo e o país pode respirar ares melhores. A censura lá como cá era pesada, mas os militares permitiam obras eróticas; na Espanha o chamado “destape’, comédias inócuas, com alguma nudez, como a nossa pornochanchada. O fim da censura na Espanha permitiu que finalmente obras controvertidas fossem exibidas no país, exatamente o que ocorreria no Brasil igualmente. Para classificar esses filmes foi criada a classificação S” para filmes de terror, erotismo e políticos: “S” pela temática e conteúdo que poderiam ferir a sensibilidade do espectador , rezava a cartilha da censura. Ela acabaria se revelando uma maneira dos cineastas promoverem seus filmes na busca de atrair público. Qualquer filme era tachado como “S” e, por conseguinte, o público afluía na esperança de ver sexo e nudez. Mas da mesma maneira que a Boca do Lixo entrou em decadência a partir dos anos 80, com a liberação dos filmes pornográficos, este tipo de cinema “S” definharia com a invasão dos pornôs hardcore e a criação da classificação “X”. O filme que comento foi uma das últimas tentativas de apelar para a classificação “S”. Os diretores que não aderiram ao pornográfico resolveram mesclar o erótico a outros gêneros, caso, por exemplo, do terror, numa tentativa de sobrevida. Ainda comentando o paralelo entre este cinema “S” e a Boca do Lixo lembremos que as condições de produção eram semelhantes: filmagens rápidas, erotismo softcore, atores semidesconhecidos e precariedade. Daí que o filme aqui dirigido pelo diretor catalão Ignasi P. Ferré tenha essas características e lembre bastante nossas produções da Riua do triunfo. Curiosamente o roteiro levou a assinatura de um nome futuramente ilustre: Isabel Caitxe, hoje diretora premiada e de sólida carreira internacional.
Voltando ao diretor a biografia dele assinala que foi assistente de nomes como Antonioni, Tinto Brass e Marco Bellochio. É nesse contexto de decadência que surge este filme híbrido e bizarro. Um farmacêutico e cientista, meio maluco, inventa um soro que faz reviver os mortos e cria uma horda de zumbis. Corte para um trio de prostitutas, uma delas Anna (Carla Dey), ávida leitora, e que sonha em ser escritora, que é convidada juntamente com as amigas para um programa que parecia trivial. O cliente, um senhor esquisito leva as meninas para um bosque e pede apenas que elas leiam para ele a história de Branca de Neve. Sim, é isso mesmo que você, leitor, está lendo. O idílio de contos de fadas, porém, é interrompido por um ataque de zumbis e só nossa heroína sobrevive saindo em fuga (nua )desabalada pelo bosque, até cair desmaiada e acordar em um quarto desconhecido. Sorte dela que a casa pertencia a um antigo amante e que se revela um escritor de romances de terror, que, no entanto não acredita na história dela sobre ter sido atacada por zumbis. A ação salta, sem muita lógica, para uma seita satânica que se reúne em uma casa também no mesmo bosque. A cerimônia desanda para uma suruba que é interrompida por um ataque de zumbis. Os sobreviventes desse massacre acabam se refugiando na casa do escritor, que enfim, acredita que os zumbis existem. Qual a conclusão dessa zarzuela de zumbi doido ? Claro que não é uma obra prima, apenas um divertimento que o espectador que aprecie as tranqueiras vai ,com certeza adicionar , à coleção.
Anexo um link : http://www.filecrop.com/Morbus-1983.html
domingo, 12 de agosto de 2012
Pets - 1974
Depois de um hiato sem publicar nada, não porque tenha deixado de assistir filmes, mas o caso é que alguns não me empolgaram, outros até gostei, mas não achei que se enquadrariam exatamente no perfil desse espaço. Sim, por incrível que pareça, depois de aproximadamente dois anos mantendo uma relativa regularidade na publicação de resenhas a sensação é que o blog acaba dominando o resenhista e, de alguma maneira, o obriga a seguir uma linha de filmes. Digamos que chiados e canudos adquiriu vida própria, fugiu ao meu controle e seleciona per si os filmes que ele deseja ver comentados. O filme que relembro aqui e assisti nessa tarde de sábado sossegada e fria é um desses casos onde meu Mr. Hyde sussurrou-me após o the end: este você terá que escrever e publicar! Só pude concordar e obedecer. Era um filme que estava aqui perdido numa penca de outros baixados no cinemageddon, creio, clamando para ser assistido. Como e por que ele veio parar no meu HD depois de demorar umas 3 horas até chegar ao notebook ? O tempo passa e acabamos por esquecer as razões pelas quais um filme foi buscado, baixado ou comprado. Já disse, não poucas vezes, que uma mulher bonita e sexy é um motivo decente –ou indecente – para se buscar e assistir a um filme. É o caso desse: a lourinha Candice Rialson fora o motivo pelo qual o filme aparecera . Tinha comentado há algum tempo o ótimo “Hollywood Boulevard”, estrelado por ela. Infelizmente ela faleceu jovem, em 2006, tendo atuado em 20 filmes, o último em 1979, quase todos no universo da exploitation e dai ser considerada uma das “rainhas dos drive-ins” pelos fãs. Ao que consta Quentin Tarantino era um desses e a homenageou no filme “Jackie Brown”, cujo personagem interpretado por Bridget Fonda teria sido inspirado nela. Mas deixemos de rodeios e vamos ao filme que foi o primeiro estrelado pela loura sapeca. Dirigido pelo alemão Raphael Nussbaum, baseado em uma peça off-Broadway escrita por Richard Reich, também coautor do roteiro. Candice Rialson é Bonnie, uma espécie de Cândido de Voltaire de minissaia, pícara e marota, transitando por uma América desglamourizada. Road movie sacana que, no entanto foge de alguns clichês da exploitation padrão dos anos 70. Há algo de terror, mas não diria que é um filme assustador. Há sexo, mas não é envolvente ou especialmente erótico.
Uma fábula satírica sobre a descoberta do mundo real? Nossa heroína é uma espécie de animal de estimação – daí o título (pets): vai passando de mão em mão - alheia e casual-, se deixando dominar psicológica e sexualmente pelos que a rodeiam. Uma artista plástica lésbica a leva para morar com ela e a mantem quase uma prisioneira, ao escapar vai buscar abrigo na casa de Victor (Ed Bishop) milionário esquisito e misterioso e, literalmente, torna-se um animal de estimação. Amante das artes que vivia isolado em um casarão, Victor é um ser saído de um filme de terror barato italiano dos anos 60. Divertido pensar que esse estereótipo nunca sai de cena e volta e meia dá as caras em filmes ou romances. No porão o ricaço mantinha uma bizarra coleção de animais de estimação fêmeas e nossa heroína é enjaulada e adicionada à ela . Nada divertido para as feministas ou os defensores do politicamente correto considerando-se que a mocinha parece aceitar de bom grado a prisão. E o discurso porco chauvinista de Victor é absurdo e hilário. Esse é um dos baratos desses pequenos e obscuros filmes exploitation dos anos 70: por trás da vulgaridade e do apelativo, havia fel, veneno e ironia. De resto, uma trilha interessante, com uma balada melancólica comentando a ação e dando às imagens aquele sabor americano setentista joia, como diria um hippie. Bons tempos. Caro chiados e canudos ,você não estaria exagerando no saudosismo? Caberia uma indagação: onde foi parar a cuca dos caras, ou melhor, onde foi parar a capacidade americana de produzir filmes assim insolentes, perversos e sacaninhas como este e outros daquela época?
abaixo um torrent: http://kat.ph/pets-1974-dvdrip-chomp-cg-t5230197.html
terça-feira, 31 de julho de 2012
A Carne - 1975
Ao que consta foi a terceira adaptação da obra de Júlio Ribeiro. Não tive até o momento muito ânimo para ler o livro, pelo fato de não ter muita paciência com naturalismo literário. Comentar dessa maneira um filme adaptado de um livro tem até um lado bom, pois evitamos as comparações quase inevitáveis que poderiam ocorrer entre um e outro. É curiosa a observação sobre o filme, na wikipedia: o livro causou polêmica e escândalo nos tempos do império, o filme, no entanto, lançado no auge da pornochanchada passou despercebido. Os tempos eram outros. A Boca viveu em toda a sua trajetória, um conflito interno: havia a necessidade de atingir o povão, com o erotismo, mas por outro lado os produtores buscavam vez ou outra dar a algumas produções um verniz mais artístico, filmes voltados para um público seleto. Para isso uma das táticas era recorrer às adaptações de clássicos da literatura nacional, principalmente aquelas que já haviam caído em domínio público. Melhor ainda se a obra tivesse alguma aura de erotismo, e no caso do livro de Júlio Ribeiro, havia isso de sobra. Talvez seja o romance de mais alta carga erótica explícita da nossa literatura no séc. XIX. Só lembrando que José de Alencar e Macedo também tiveram obras adaptadas para as telas. O filme foi lançado dentro desse contexto de buscar um público mais sofisticado e a aceitação da crítica. Funcionava? Alfredo Sternheim , que adaptou “Lucíola” baseado em José de Alencar , lembrou em entrevista que a recepção ao seu filme foi negativa e de deboche da crítica. Não havia escapatória. Ou era paulada comendo solta ou então restava a indiferença e o desprezo. Coube ao que tudo indica essa sina ao filme de J. Marreco, considerando que quase nada se encontra sobre ele na net. “A Carne” se não tivesse nenhuma qualidade já valeria a pena somente pela presença deslumbrante de Selma Egrei. Mas felizmente o filme tem outras boas razões além da presença melancólica e sensual da atriz: um bom roteiro, escrito por Antônio Bivar e Antônio Calmon, a direção sensível do diretor J. Marreco, mineiro oriundo de Belo Horizonte, que fez carreira na Boca do Lixo exercendo várias funções, e a boa fotografia. Aos que supõem que os filmes da Boca são histericamente sexuais e calhordas - os velhos preconceitos de sempre- o filme impõe ao espectador uma narrativa calcada no intimismo e nas nuances, tingidos pela melancolia. Há uma preocupação com a verossimilhança histórica: o fim da escravidão e todos os dramas e estigmas decorrentes bem inseridos e rondando os senhores brancos, personagens da ação. Enquanto estes discutem e tentam fazer o sexo ( a carne), o elemento que move todos os gestos e passos dos personagens da casa grande, na senzala o chicote e o tronco falam a linguagem da dor na carne negra e desamparada. Lenita (Selma Egrei) uma jovem órfã, inteligente e culta (fato raro na época)que não tem outra opção na vida, após a morte do pai, que não seja se mudar para uma fazenda e passa a ter a companhia apenas do velho senhor. Solidão e isolamento. Havia um filho, mas sempre ausente. Esperança de amor, volúpias imaginárias. Decepção no primeiro encontro em uma cena memorável. Lenita se desespera ao constatar que o filho Augusto, era velho, esquisito e longe dos padrões imaginados por ela. Apesar do choque inicial ambos se aproximam e acabam se relacionando. O sexo , as taras, a libertinagem: “Sou moça, sou rica e quero gozar”; “Você foi a mulher mais devassa que já encontrei”. Ele é falado, discutido, mas o diretor opta pela suavidade e delicadeza, expondo o belo corpo de Selma Egrei em fugazes, mas belos, momentos. Tudo é sexo, mas a sensualidade carnal é um elemento ausente do filme, pelo menos da maneira que o público da época desejaria. Aos filmes saídos da Rua Triunfo só era permitido a truculência visual, técnica e a libidinagem . Aos que ousassem transpor essa fronteira, só restava o limbo e o esquecimento. Lenita, metáfora perfeita do cinema da Boca, não pode levar até as últimas consequências a paixão por Augusto, homem casado e cansado, e só lhe resta fugir e aceitar o jogo da sociedade. O filme ainda espera por uma edição decente em DVD, e pode ser encontrado na net numa cópia sofrível, mas é a única possível.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
La Morte Non Ha Sesso - 1968
Um detalhe que mesmo aqueles que os desprezam não podem negar: os gialli sempre têm bons títulos. E com esse não foi diferente: “A morte não tem sexo”. A versão americana ganhou um título, como sempre, pior: “A Black Veil for Lisa”. Não há dúvida que é um gênero de tramas e temas reduzidos: o obrigatório assassino que só se revela no final, sempre utilizando para os crimes uma tesoura ou quando muito uma faca, muitas mortes sangrentas, e tramas algumas vezes confusas, mas elegantes e de grande riqueza visual. Outros traços são inegavelmente atraentes : belas mulheres ,boas trilhas sonoras . Um detalhe que praticamente todos os giallos têm é a geografia onde as tramas se passam: apesar de dirigidos e realizados por italianos, as histórias geralmente são ambientadas em países estrangeiros. Boa parte na Inglaterra, sendo que este se passa em Hamburgo, na Alemanha. Nunca entendi bem esse aspecto inusitado do gênero. Massimo Dallamano foi cameramen experiente tendo trabalho em dezenas de produções italianas, mas só deixou 14 filmes como diretor. Este não chega a ser o seu filme mais badalado, o que é uma pena, acho que, inclusive, nem ganhou edição em DVD . Um filme, que guarda boas surpresas para o espectador e com razões suficientes que o tiram dos ,muitas vezes, estreitos limites impostos pelo gênero. A sequência inicial até dá a entender que veremos mais um giallo clássico: um homem andando por uma rua escura, é atacado e é assassinado a facadas por um assassino misterioso. Mas à medida que o filme avança ocorre um movimento do exterior – os crimes – para o interior – a mente do personagem principal: um policial de meia idade responsável pelas investigações. Já foi observado que a obsessão erótica seria o tema básico que permeia os melhores filmes do diretor. É só lembrar que Dallamano filmou, por exemplo, obras como “A Vênus das Peles” de Masoch - com a divina Laura Antonelli -, e “O Retrato de Dorian Gray” com Helmut Berger, dois clássicos literários da perversão.
Aqui é o ciúme que está no cerne do drama. A velha máxima de que o ciumento sempre acha mais do que procura se aplica perfeitamente à tragédia que se desenrola. Bulov (John Mills) se casou com uma mulher bem mais jovem, a bela Lisie ( a bond girl Luciana Paluzzi). Para complicar ainda mais eles se conheceram na delegacia: a moça fora condenada por tráfico. Ciúme, o Inferno do amor possessivo - o título de um filme que não recordo agora quem dirigiu - que se aplicaria bem aqui: a obsessão transtorna-o, não deixa a mulher em paz, seguindo-a e vigiando todos os passos dela. Na sua mente vai se desenrolando uma trama paralela de traições reais ou não. Nós, espectadores, somos deixados à deriva. A revelação da identidade do criminoso no meio do filme contraria umas leis do giallo e faz a trama tomar rumos inusitados: Bulov pede ao assassino, o bem apessoado Max (Robert Hoffman), que mate a esposa, diante da certeza da presumida traição. O problema é que Max e Lisie ao se conhecerem, ambos belos e jovens, caem nos braços um do outro e iniciam um affair, sob os olhos estupefatos e inebriados pelo ciúme do velho marido. Como pano de fundo desse triângulo amoroso temos o universo do tráfico de drogas: as mortes que ocorrem são todas relacionadas às investigações conduzidas pelo departamento de narcóticos e a suspeita é que um figurão playboy esteja por trás de tudo. As reviravoltas da narrativa são conduzidas com boa mão pelo diretor resultando em um bom exemplar do giallo.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Belas e Corrompidas - 1977
Fauzi Mansur é um bom exemplo de diretor cuja obra transcendeu os limites da Rua do Triunfo, cenário da Boca do Lixo, infame para muitos, e tem lugar cativo na lista dos melhores diretores brasileiros de todos os tempos. Quando digo limites, não me refiro só ao espaço físico, mas aos limites conceituais onde os filmes nascidos na região ao redor da rua do Triunfo foram confinados e marcados: o rótulo pornochanchada e a imagem trivial de mau gosto, para dizer o mínimo. O primeiro detalhe que chama a atenção na obra desse diretor de origem árabe é a variedade de gêneros: comédia, terror, drama histórico e erótico entre outros. Não conheço infelizmente todos os seus filmes, já que vários são impossíveis de conseguir e podem estar perdidos até, mas todos os que tive o prazer de assistir me dão a certeza do vigor de sua obra. Entretanto não me aventurara pela obra do diretor nos anos 80 e 90, mais restrita ao terror e filmes de sexo explícito. O gênero terror é raramente praticado no país, e de resto o cinema de gênero em geral. Cinema sem medo da inocência e do prazer sem culpa. Breve tergiversação : um dia desses revi o fantástico “A reencarnação do Sexo” do colega da boca, Luiz Castellini e recentemente lembrei aqui o “O Estripador de Mulheres”, que já descamba mais para um mix de terror e humor. No fim de semana por um acaso do destino consegui “Karma”, de 1984 e “Atração Satânica” de 1989, dois exemplares dessa fase tardia do diretor. O primeiro resolvi encarar nesse fim de semana e me deixou ,mais uma , vez perplexo. Os filmes de Mansur tem essa capacidade, para o bem e para o mal. Provavelmente filmado em 16 mm e presumo que não tenha sido exibido nos cinemas:o mais certo é que tenha somente ganhado edição em VHS, como os outros filmes dos anos 80 de Fauzi, visando, sobretudo o mercado externo e as locadoras. Um filme desigual, bárbaro, brutal e insano. Uma história de fantasmas e casa mal assombrada filmado no limite do risível, em alguns momentos, mas sem perder o fascínio. Um filme apocalíptico, de narrativa elíptica e densa. Interpretações toscas: nada espantoso considerando-se que boa parte do elenco tinha mais experiências em filmes pornográficos. Um filme casto, diga-se de passagem, no quesito sexo. Para efeito de comparação resolvi rever o citado “Belas e Corrompidas” de 1977. A lembrança que tinha era a melhor possível e confesso que ao revê-lo a impressão foi ainda melhor. Afirmações categóricas são sempre perigosas: mas por que não afirmar que este é um dos 10 melhores filmes brasileiros de todos os tempos? Seria tachado de imbecil por muitos. Mas, ok. Faço a afirmativa: “Belas e Corrompidas” é uma obra-prima e numa lista que eu fizesse – e que nunca farei - dos meus filmes brasileiros favoritos seguramente estaria entre os dez ou vinte mais. Alguém realizou uma enquete desse tipo na net dos piores e melhores. Ambas as listas triviais nos títulos de modo geral, com honrosas exceções. Divertidos e ilustrativos mesmo foram os comentários de leitores sobre as listas: todos, sem exceção esculhambando os filmes nacionais eróticos dos anos 70 e clamando por uma suposta qualidade visual e de bom gosto. “Karma” teve exibição no canal Brasil, quanto a “Belas e Corrompidas” não tenho certeza. A cópia obtive há tempos no desaparecido Putrescine. Maria Isabel de Lizandra, em seu momento supremo no cinema, no papel de uma serial killer sexy e infernal. Humor negro, dionisíaco, debochado e anárquico.
Um roteiro sinuoso e com a precisão de um relógio suíço escrito por Marcos Rey e o próprio Fauzi: um personnagem some, a situação parece que deriva, e de súbito tudo ganha sentido. Uma trilha sonora singular - montada por Carlos Reichenbach misturando soul music e Wagner, entre outros sons. "Karma " também compensava os efeitos especiais pobres, com uma ótima montagem sonora. E por falar no grande Carlão – que nos deixou tão cedo -, ele atua como um cego louco e tarado de nome Igor, que tem um caso com a criada –corcunda – da bela assassina; e temos Heitor Gaiotti, parceiro de Tony Vieira, como um ex-presidiário que vai trabalhar de jardineiro na mansão da mulher fera. Thomas de Quincey e seu “Do assassinato como uma das belas artes “: cada crime da nossa heroína é sexy e requintado, operístico, rituais de dor e gozo, amor, dor e humor. E é também uma das mais belas e malditas histórias de amor do nosso cinema. Os momentos antológicos são tantos que enumerá-los me obrigaria a contar todo o filme. Detalhar todas as sutilezas visuais e auditivas, as ironias cortantes, enfim todos os meandros dessa suma poética da danação e do horror demandaria muito mais que as 800 palavras digitadas até agora. Só posso dizer aos que não conhecem esta obra-prima que corram , procurem, batalhem, mandem pedidos para o Canal Brasil ; e torçamos para que um dia alguma produtora de DVDs decente coloque em circulação uma boa cópia dessa maravilha e de outras perdidas .
terça-feira, 17 de julho de 2012
Les week-ends Maléfiques du Comte Zaroff -1976
Michel Lemoine é figura conhecida - como ator - para aqueles que estão familiarizados com o eurotrash da década de 60 e 70. Coincidentemente meu domingo foi marcado por assistir a dois filmes em que sua presença foi notada. Este que comento, como ator e diretor: o outro, que talvez comente futuramente, uma produção italiana dos anos 60, “Delitto allo specchio” – de 1960 -, onde apenas atuou. Para continuar nas coincidências dominicais a atriz Joelle Coeur é a atriz principal do meu filme, mas ganhou lugar especial entre as estrelas da sexploitation europeia dos anos 70 com Jean Rollin, e acabei assistindo também no domingo ao filme “As Demoníacas”, estrelado também por ela e dirigido por Rollin. Duas coincidências, portanto. Uma bela mulher, que sumiu do cinema, casou e virou psicóloga na França e enterrou o passado. Michel Lemoine foi um discípulo, aliás, de Jean Rollin e este seu filme é um bom exemplo dessa influência. Outra evidente influência é a dos filmes do espanhol Jess Franco, compreensível tendo em vista que Lemoine atuou em vários de seus filmes. Como ator atuou em mais de 50 filmes, e como diretor realizou 28 títulos, muitos deles pornográficos. O título já dá uma dica para o espectador: trata-se de mais apropriação do mítico Conde Zaroff, que teve sua melhor versão em 1932 co-dirigida por Irving Pichel e Ernst Schoedsack.
Mas incontáveis versões existem do tema do nobre cujo esporte favorito é caçar seres humanos como animais. Na verdade em meu filme Zaroff é apenas o neto do monstro e vivendo isolado em um castelo, tendo por companhia apenas um criado soturno, interpretado pelo favorito de Jess Franco o ator Howard Vernon, que ,aliás, já interpretou o Conde Zaroff em uma versão realizada por Jess Franco. Bóris Zaroff é um respeitável homem de negócios parisiense também. E ao contrário do avô a sua crueldade é marcada pela indecisão e vive permanentemente mergulhado na fronteira entre a realidade e a loucura e obcecado pela visão de uma misteriosa e bela mulher. A narrativa deixa que estes parâmetros se confundam e o resultado é um filme, que como muitos do mestre Jean Rollin, faz sentido se o espectador abdicar da busca de uma lógica cartesiana e se deixar hipnotizar. O terror francês dos anos 70 sempre privilegiou essa cadência onírica, basta lembrar além dos citados filmes de Rollin, trabalhos como “La Papesse” – que já resenhei aqui no blog – ou “Morgana et ses nymphes”, para ficar em dois bons exemplos. Um filme de boa atmosfera, em que a boa trilha ajuda bastante, além da fotografia que abusa de efeitos visuais. A versão americana recebeu um título tolo de “Seven Women for Satan”, absolutamente sem sentido.
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