Quando fazia pesquisas para escrever a resenha sobre o filme
“O Inquisidor” – uma coprodução entre Peru e Argentina - tive notícias de Jairo Pinilla um diretor colombiano, e me chamou a atenção o fato dele se dedicar ao gênero
fantástico. Algo inusitado : um diretor colombiano realizando filmes
de gênero. Ao lado do nosso Jose Mojica
e do hermano Emilio Vieyra um dos raros
nomes que praticaram de forma mais sistemática o terror e o fantástico na
América Latina. E ,assim como nosso
Mojica , filmes realizados em condições
precárias: orçamento exíguo, atores não profissionais. Os críticos o apelidaram de o “Ed Wood
colombiano”, o que pode soar bizarro ao quadrado. Para aqueles que acham que o cinema é uma arte que exige padrões
de qualidade técnica, interpretações classe “A” e nada que incomode, que seja um afago no ego em suma, os filmes
dele não serão indicados e aconselho a evitá-los. Mas se você acha que o cinema
pode ser mais do que isso, que ele deve e pode ser ingênuo, louco, furioso, idiota,
insolente irreverente, descomunal, insensato, infantil, primitivo, alucinado,brutal, então mergulhe no universo desse
colombiano que ainda está vivo e produzindo filmes modestos na terra natal. Lembrei nosso
Zé do Caixão , mas o universo de Jairo também tem muito a ver com os filmes de
Chico Cavalcanti e outros diretores da Boca que realizaram filmes de terror.
Interessante que ele se arriscou a explorar outros gêneros, como neste filme
que relembro bem mais próximo do fantástico com toques de ficção científica, do
que do terror. O filme foi dublado em inglês e filmado fora da Colômbia – no Panamá e no Caribe -,
com a clara intenção de que soasse como uma produção americana ou
internacional. Jairo comentaria que o
público gostou e achou que estivesse diante de uma produção japonesa! Na mesma entrevista o
diretor resumiu a obra: “Tratava-se de
uma ilha no Atlântico que era visível somente de um determinado ângulo, e dos outros restava invisível. Na ilha havia um
triângulo de ouro maciço cobiçado por muitos, mas que era, no entanto perigoso,
já que todos que chegavam á ilha para busca-lo geralmente não saíam vivos”. Uma
ilha perdida no oceano, um objeto, um segredo, um desejo, um sonho. Um filme em
todos os aspectos único: um “Lost”
tosco, mas com a poesia de Mélies ,Jules
Verne e dos verdadeiros artistas do cinema primitivo. Ed Wood, mas também Steven Spielberg: um
crítico conterrâneo escreveu depois de ver este filme que” Jairo ,guardada as
devidas proporções, era o Spielberg colombiano”. Sobre o filme ele declarou,
com franqueza e coragem, que a intenção não foi de fazer um filme de arte, como os outros
diretores do país sempre faziam, mas um
filme comercial. Jairo se assumiu ingênuo (trabalho para pessoas que querem se
divertir, e não gente pretensiosa , comercial sim(não pretendo fazer filme de
arte),kitsch( se considerar que ser kitsch é ser vulgar e fazer os outros se divertirem,
então eu sou kitsch). Jairo tem outra tirada que faria as delícias dos que
desejam esculhambá-lo: “No cinema prefiro Batman a Bergman”. Jairo, assim como nossos Tonys, Cavalcantis , Cunhas e tantos outros ,foi
mais um que se arriscou a realizar filmes para o público simples, longe das
veleidades e pretensões sociológicas e artísticas. Lembrando que Jairo Pinilla foi homenageado no
festival de cinema fantástico realizado em São Paulo em 2010, juntamente com
seu coirmão José Mojica. Para os interessados todos os seus mais importantes filmes(
a obra é pequena) estão disponíveis no Youtube, incluindo este que relembro.
quarta-feira, 27 de março de 2013
domingo, 17 de março de 2013
A Força dos Sentidos - 1979
É sempre um momento muito especial para um cinéfilo –detesto o termo, mas enfim- quando
finalmente conseguimos um determinado filme que julgávamos perdido ou
impossível de encontrar. As notícias que obtivera sobre a possível existência da(considerada)
obra-prima de Garrett terminavam invariavelmente em um beco sem saída. A Cinemateca
Brasileira tem uma cópia, mas segundo um amigo me confidenciou, sem uma parte
da banda sonora, o que impede qualquer exibição em um Canal Brasil, por exemplo;
a edição em VHS sequer fora comercializada nos anos 80; enfim, já me dera por
vencido e desistira de um dia assisti-lo. Cheguei a escrever para um blogueiro
e jornalista, que pelo comentário postado sobre o filme conhecia e tinha uma cópia,
mas nunca obtive a gentileza de nenhuma resposta à minha solicitação, ainda que
fosse negativa. E eis que um dia desses aparece no Facebook um anúncio do
diretor Claudio Cunha – que felizmente é amigo virtual - oferecendo os filmes
que dirigiu e o filme do Jean Garret, que foi produzido por ele, estava ali no
meio da chamada. Parecia um trote de sádico, mas não era: mensagem trocada,
dinheiro enviado, e enfim o sonhado e ansiado filme diante de mim. Não tenho a
pretensão de fazer uma elucubração crítica sobre ele. O meu espaço virtual é ameno e trivial. Convencer um eventual leitor a se
interessar pelo filme já me terá deixado feliz. Jean Garrett é para mim um dos
melhores diretores brasileiros de todos os tempos. E depois de assistir a este
filme só confirmei o pensamento, apesar de ainda continuar achando que “A Mulher que Inventou o Amor”
seja melhor. Só revendo-o para tirar a boa dúvida. Felizmente as obra da Boca
do Lixo tem recebido mais atenção de alguns anos para cá. Mas sou testemunha de
que nas minhas rodas de amigos cinéfilos quando toco em nomes de diretores como
Garrett, Chico Cavalcanti, Tony Vieira, Fauzi Mansur ou outros, simplesmente
zombam e debocham de mim. Lendo o maravilhoso “Mondo Macabro” de Pete Tombs,
livro também que só consegui com muito esforço ( e mesmo assim em versão
digital), achei interessante uma observação sobre esta questão de recepção
crítica á obras que fogem do padrão cinéfilo “cinema de arte de qualidade” que
predomina entre nós. Curiosamente vejo que esta é uma tendência que predomina nos países de
cinematografias periféricas. O comentário de Pete Tombs se referia ao cinema
argentino, e caberia perfeitamente à realidade brasileira. Lá como cá cineastas
que não rezaram pela cartilha cinema de “qualidade”
artística (diga-se passagem que os Hermanos fazem este tipo de cinema muito
bem, ao contrário de nós )são menosprezados. Um dia desses conversando com
amigos, por exemplo, um deles se referiu a mim como um amante do cinema
argentino, o que despertou o interesse de outro na mesa, mas quando citei os nomes de
Vieyra, Armando Bó e outros, vi apenas uma cara incrédula: nenhum deles ele
sabia da existência. Boa parte dos cinéfilos tem como parâmetros de qualidade
filmes referendados pela crítica francesa dos anos 60, que tenham temática
séria e adulta, que não tragam conteúdo erótico de mau gosto, e claro, que
tenham interpretações excelentes dos atores, trilhas sonoras classudas ,
temáticas preferencialmente de esquerda,
de cunho social e otimistas. O sucesso do recente filme francês “Os Intocáveis”, é um
bom exemplo, creio. O cinema, enfim, enquanto arte esnobe, excelsa, afetada e
para eleitos. O português Garrett trabalhou sempre dentro de uma linha de
produção dirigida ao público popular, mais “baixo” possível, aqueles que só
queriam mesmo ver mulher pelada gostosa, bater uma punheta e esquecer a vida
miserável que levava nas grandes cidades ou pequenas.
A crítica mais comum feita à obra de Garrett seria de que seus
os filmes eram pretenciosos e afetados – pela utilização de músicas clássica na
trilha, e diálogos supostamente “ridículos e pedantes”. Um crítico famoso na
época ironizou o fato do personagem escritor buscar refúgio em uma ilha sob a
alegação de que isso era uma ideia impensável num país onde não existiria
escritor profissional. Gostaria de,
aliás, de saber se este “crítico” comentou “A Menina do Lado” de Alberto Salvá,
outro filme que gosto muito, e que também é sobre um escritor refugiado em uma
ilha deserta. Dentro dessa lógica quase toda a
cinematografia mundial teria que ser eliminada da face da Terra por
inverossimilhança. Seria divertido se não fosse grotesco a suposta observação.
Para mim- que não sou crítico- justamente
o que me agrada na obra do diretor é esta tentativa de pretensão e elegância,
sem perder, no entanto o foco no popular. “A Força dos Sentidos” é sofisticado
sim, tem narrativa sinuosa, carregada de ambiguidade e sem nenhuma referência
imediata á realidade nacional. A trama poderia se passar em qualquer lugar,
pois ela pertence ao terreno do fantástico mais puro.
Meu gênero literário favorito sempre foi a literatura
fantástica – de certa forma considero que obra é fantástica em sua essência. Nada mais óbvio, portanto, que
também me atraia o cinema de cunho fantástico em todas as suas variáveis. Uma
pena que o gênero foi pouco praticado no país tanto no cinema quanto na
literatura. Garrett , um dos raros cultores do gênero, dentro de um modelo
bastante pessoal, muito distante de um Mojica, por exemplo. Surpreenderam-me,
no filme, as evidentes semelhanças com obras do cinema mundial anteriores e
posteriores: Os roteiristas – Garrett e Koszpeky – conheciam “Carnival of
Souls”? Não acredito, mas tudo é possível; e o que dizer de “Sexto sentido” e “Os Outros”,
dois filmes marcantes recentes que
trazem igualmente similaridades curiosas com o nosso obscuro filme nacional?
Uma crítica honesta publicada na época lembrou “Os Inocentes”, clássico inglês de
Jack Clayton, o que faz sentido remotamente. O fato é que é, talvez ,o filme mais impregnando pela atmosfera do fantástico em toda obra do
diretor, e talvez de todos os filmes brasileiros do gênero. Nada do que se
desenrola na tela, percebemos nas sequências iniciais, é real. O espectador é
imediatamente convidado a mergulhar no terreno do fantasmagórico e do
imaginário. Está claro, Garrett não esconde que há algo errado em toda a
situação vivida pelo escritor. A estupenda fotografia de Carlos Reichenbach –
que ele considerava a melhor que fez em toda a carreira como fotógrafo –
acentua com planos maravilhosos o clima opressivo e sombrio. Em suma: que bom, que esta obra
pode ser apreciada novamente por todos. No site do diretor e ator Claudio Cunha
o filme pode ser adquirido www.claudiocunhaproducoes.com.br
terça-feira, 5 de março de 2013
Symptoms - 1974
José Larraz é um diretor já conhecido pelos admiradores do cinema exploitation europeu, graças ao fabuloso e sexy “Vampyres”, que sinceramente não sei se ganhou edição em DVD no Brasil. Provavelmente não. De qualquer maneira este filme e outros da sua filmografia já mereceram resenhas nos blogs nacionais, e muitos são encontráveis sem dificuldades em sites de compartilhamento ou no Youtube. Já lembrei que este último tem se revelado uma ótima fonte de filmes raros e obscuros. Tenho me surpreendido com certos filmes que pesquei no canal. O conselho é que corram e peguem o que puderem, pois logo esta festa vai acabar, suponho. O filme que relembro não é mais badalados na filmografia, talvez por estar ainda inédito em dvd e só circular em edições piratas, todas provenientes de uma exibição em 1983 na TV Inglesa. Uma pena, porque é um dos melhores da filmografia do diretor, e muitos até o consideram tão bom quanto o citado "Vampyres". Com ele Larraz concorreu no Festival de Cannes em 1973, e dizem que Jack Nicholson, membro do júri na ocasião , declarou que o filme era uma obra-prima e merecia a Palma de Ouro. O fato é que isso não aconteceu e o diretor, decepcionado, ficaria três anos sem dirigir. Em entrevista Larraz se declarou antes de tudo um romântico e um apaixonado pelos “tebeos”,os quadrinhos espanhóis, aos quais se dedicou antes de entrar para o cinema. No início da década de 70 o diretor iria para a Inglaterra e realizaria quatro filmes para produtores locais. Curiosamente todos lançados no mesmo ano de 1974. Assim como em "Vampyres" temos duas mulheres, uma mansão isolada e um ambiente rural. Mas o que é sangue, sexo demoníaco e nudez no filme das vampiras lésbicas, é discrição, melancolia e uma sexualidade difusa e reprimida em “Symptoms”. Menos “Possessão” de Zulawski, mais para “Repulsa ao Sexo” de Polanski, com o qual, aliás, o filme de Larraz guarda algumas semelhanças, já apontadas em resenhas que li. Helen( interpretada com perfeição por Ângela Pleasense, filha do ator Donald Pleasense) regressa para sua casa no campo levando consigo uma amiga Anne(Lorna Heibrom). Leituras, música, passeios pelo bosque e de barco pelo lago, enfim, a paz absoluta e perfeita. Um furtivo beijo na boca, apenas, para o espanto de Anne, e nada mais. As noites de Helen, no entanto, passam a serem perturbadas por ruídos vindos do sótão, súbitas visões de uma mulher, Cora, uma amiga que desapareceu, e que provavelmente morreu afogada no lago, ou teria sido assassinada? Mas o que fica claro é que Helen, além de profundamente perturbada pela lembrança da amiga -e paixão sáfica certamente- , tem uma sexualidade reprimida e histérica. A atmosfera sombria e melancólica emoldura uma trama monocórdica, minimalista e ambígua onde fantasia e realidade se chocam e se confundem -, mas plena de tensões e pulsões prestes a explodirem. O resultado é uma pequena obra-prima de câmara como um quarteto de cordas ensaiando um concerto de desejos vulcânicos. Mas como foi dito por um crítico inglês o mistério não está na trama – que é quase óbvia –mas nas nuances e na textura da narrativa.
Há que se ressaltar a excelente montagem, a cargo de Brian Smedley- Aston, responsável por “Performance” de Cammell e Roeg. O filme tem completo no Youtube.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Angel of Destruction- 1994
Este filme talvez seja outra (mais uma) desculpa – sempre esfarrapada - para lembrar uma das rainhas do filme B, talvez a maior de todas, dos anos 90. Maria Ford, que está na casa dos 50 agora, e ainda em atividade na TV, ganhou lugar cativo nos fãs com uma série de filmes baratos, rápidos, geralmente de ação, erótico, terror, ou ficção científica. Generosamente sempre fez questão de mostrar os atributos quando assim exigia o roteiro. Outro detalhe: ela entende mesmo de artes marciais e não dubla suas cenas, além de ser excelente dançarina( foi stripper em Las Vegas). Boa parte dessas produções Bs ,onde atuou ,foi realizada diretamente para o mercado de vídeo. Os anos dourados da grindhouse e exploitation já eram lenda nos anos noventa, mas o surgimento do VHS deu sangue ao filme B na Itália, EUA e outros países. E nesse contexto que se situa este filme que escolhi para lembrar essa lourinha gata brava . Ainda não vi todos os filmes que estrelou (devo ter uma dezena ou mais), mas pelo título resolvi arriscar e confesso que me diverti bastante. O filme como ele pode ser visto hoje pelo espectador surgiu de um contratempo sui-generis. Inicialmente seria estrelado por Charlie Spradling, que interpreta a irmã da personagem vivida por Maria Ford. Porém como ela não aceitou fazer uma cena em que tinha que lutar vestida só com uma calcinha os produtores decidiram “matar “ seu personagem, reescreveram o roteiro, e convocaram Maria Ford, que se tornou a heroína da história. A trama recicla dois sucessos da produtora de Corman : “Angelfist”, dirigido por Ciro H. Santiago, e “Blackbelt” do mesmo diretor desse filme, Charles Philip Moore. Na verdade é quase uma refilmagem desse último realizado dois anos antes. Como não curtir um filme em que a heroína é obrigada a enfrentar um bando de vilões vestida apenas com uma sexy calcinha vermelha? A cena, aliás, lembra a sensacional sequência do “pink” japonês “Sex and Fury” com Reiko Eike lutando completamente nua, sob a neve. Foi esta a sequência que motivou o quiproquó com Charlie Spradling, diga-se de passagem. Em mais de um sentido este filme revela influências do cinema oriental dos anos 70 japonês e de Hong Kong. Como nos gloriosos anos setenta as filmagens foram realizadas nas Filipinas, com produção do grande Ciro H.Santiago e Roger Corman. Maria Ford é Jo, uma policial, cuja irmã Britt - uma policial durona também – é brutalmente espancada e morta por um brutamonte. Claro que ela parte então no encalço de Bobby, o psicopata frio que matou a irmã, e que colecionava corpos de mulheres como quem colecionava filmes vagabundos: depois de fazer sexo com as incautas -vestidas de noivas- as matava com porradas e arrancava o dedo onde previamente colocara um anel de noivado. Muito singelo, mas considerando que ele era um mercenário ex-combatente do Vietnã, perfeitamente explicável. Para chegar até este simpático sujeito nossa heroína e musa mergulha no universo do showbusiness fuleiro, com cheiro de fracasso, quase da prostituição. No centro desse mundo tosco encontra Delilah(Jessica Mark) uma cantora bissexual que realiza um show strip lésbico & sadomasoquista, que já não atraia quase ninguém. Era sustentada por um gangster gordo e escroto cujos negócios incluíam tráfico de drogas, proxenetismo e outras coisitas mais, além de uma gravadora. Jo vai trabalhar como guarda-costas da artista. O psicopata nutria uma fixação doentia pela cantora e além de segui-la mandava-lhe presentinhos que incluíam dedos decepados. Mais romântico impossível. Outro momento estupendo acontece: ameaçada pelo vilão, que rapta a namorada e partner da cantora, Jo é obrigada a fazer um número de strip-tease. Nonsense e divertido. Ao que parece boa parte dos filmes de Maria Ford incluem cenas assim ou se passam nesse ambiente, pelo que constatei. Policial disfarçada de stripper, aliás, seria quase um sub-subgênero da exploitation tal a quantidade de filmes realizados nos anos 80 nessa linha. Mas o gênero do filme é mesmo “gostosa pelada com uma pistola fumegante”. E dentro dessa linha o filme é uma ótima e deliciosa farra. Observando o ano do filme constato que este é, provavelmente, o mais “novo” que resenhei aqui no blog considerando o ano em que foi realizado. Para os interessados existe ele no pirate bay: http://thepiratebay.se/torrent/6936728/Angel_of_Destruction_(1994)___Maria_Ford__
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
La Lupa Mannara - 1976
Um filme que filme assisti pela primeira vez em uma edição americana, quando morava nos EUA e veio num pacote com 50 dvds a preço irrisório. Por lá essas edições são comuns: geralmente são amontoados de filmes cujos direitos autorais venceram. Com preço tão baixo é natural que no bolo se salvem digamos assim a metade, e a qualidade é o item pior infelizmente, principalmente quando se trata de filmes europeus os anos 60 e 70.´É o caso desse dublado em inglês e cheio de cortes. Felizmente obtive a versão integral e pude apreciar mais uma vez a esplêndida Dagmar Lassander, além da pouco conhecida Annik Borel. E o bom é que tem no youtube. Corram enquanto ainda está lá. O acervo do canal está excepcional, apesar da qualidade não ser perfeita em alguns casos, mas no caso desse filme a cópia é de boa qualidade e parece que sem cortes. Metragem em filmes europeus dos anos 70 é um problema sério, controverso, e renderia artigos. O diretor é o subestimado e esquecido Rino Di Silvestre, um dos maravilhosos e mais obscuros “picaretas” da geração de ouro do eurotrash italiano. Infelizmente as oportunidades na direção foram poucas - somente 8 filmes-, o que não o impediu de deixar ótimos e absurdos filmes em gêneros variados. Este o único que obteve certa ressonância. O tema da licantropia foi bem explorado por espanhóis, eslavos, mexicanos e americanos com contribuições interessantes à lenda do bichão. Mas os italianos que tanto fizeram pelo horror e fantástico, a partir de Bava, Polselli e outros, deixaram o lobo de lado. “En Passant”, não recordo se os ingleses abordaram também o tema. O título da versão americana tenta enquadrá-lo na licantropia. Mas o fato é que o filme vai além (ou aquém, dependendo do ponto de vista) e o tema aparece subjacente. A heroína, a mulher loba, do título é a francesa Annik Borel, de carreira efêmera no cinema europeu(10 filmes no total). O diretor declarou que só a escolheu para o papel pelas feições que lembravam uma loba. Uma bela mulher, e que se tivesse encontrado um Jess Franco teria alcançado maior destaque na galeria das divas do exploitation. Mas e o filme, é ou não é de lobisomem? Bem, o início, após uma abertura sensacional com uma mulher dançando nua em volta de uma fogueira, parece que vai enveredar por mais um terror gótico de época, que fez glória do cinema italiano. Surgem então os camponeses, aprisionam a mulher lobo e a mandam para a fogueira. Os tempos não eram fáceis para quem escolhia meios alternativos de vida. Salto para a idade contemporânea e encontramos Daniele, descendente da mulher-loba, riquíssima, morando com o pai em um castelo no campo. A irmã, interpretada por Dagmar Lassander, aparece para a uma vista em companhia do marido, e então o espectador começa a se dar conta que a moça não regulava muito bem e apresentava sérios problemas de sexualidade. Para os psicanalistas, a definição seria uma histérica. Estuprada aos 15 ,tomara aversão ao sexo, sem, no entanto deixar de ter uma fascinação voyeurística pela coisa.Para complicar ela se julgava possuída pelo espírito da antepassada e não tarda em mostrar as garras, sendo o cunhado o primeiro objeto de consumo a ser estraçalhado numa noite de lua cheia. Segue-se uma internação, choques, camisa-de força- o trivial da psiquiatria cinematográfica- até a fuga, não sem antes cometer outra morte. E o inesperado acontece na trama e na vida da nossa, digamos, heroína: conhece um sujeito legal, dublê, e que morava, numa cidade fantasma, de fato um velho set de westerns spaghettis abandonado .E pela primeira vez ela se entrega e descobre o amor, a loba se despe da pele e se transforma numa mocinha boa, carinhosa e que ficava cuidando da casa enquanto o lover trabalhava. Mas felicidade será infelizmente estragada por um trio de malandros, que estupram Danielle e matam namorado. Não é spoiler ! Como se percebe pela sinopse está claro que Rino Di Silvestre colou uma série de gêneros exploitations em um só filme, sem muito nexo. O resultado não poderia deixar de ser desigual. E daí? Pergunto eu. Com todos os prós trata-se de uma legítima tosqueira fascinante e deliciosa. Para os fãs de Tarantino assinalo que o filme foi exibido no festival organizado pelo cineasta em 1996, na cidade de Austin, no Texas, em uma exibição surpresa à meia noite. O sucesso foi tanto, que a partir de então a sessão passou a ser apelidada de “sessão da mulher loba”.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Adrift aka Touha Zvaná Anada - 1970
Em meus passeios pelas cinematografias de países tidos como periféricos ou exóticos ainda não tinha me aventurado aqui no blog pelo cinema do leste europeu. Um pecado, tendo em vista que gosto demais dessa outra Europa: cinema polonês (Zulawski , Has e outros), húngaros, tchecos, romenos, russos e companhia ltda. Janos Kadar foi nome dos mais importantes do cinema do leste europeu. De origem húngara, realizou filmes na antiga Checoslováquia, um deles era exibido regularmente nos bons tempos dos cineclubes: “A Pequena Loja da Esquina”. Filme tido por muitos como o melhor de todos os tempos na cinematografia Tcheca. A invasão russa liquidando coma Primavera de Praga e o forçou a imigrar para os EUA. Boa parte dos seus filmes foram , na verdade, dirigidos em parceria com Elmer Klos. É o caso desse aqui que relembro, e do qual nunca tinha ouvido falar até pouco tempo. Aliás, encontrei poucas referências na rede sobre o filme. Mas curiosamente ele é facilmente encontrado(ainda) no youtube, em cópia legendada em inglês. E que tudo indica a única. Pelo visto o filme não se popularizou ao contrário de outros exemplares gerados na new wave checa nos anos 60, que revelou Milos Forman, entre outros nomes. Qual a razão? Creio que é um filme que não se enquadra no modelinho pseudo-social que era apreciado pelos cinéfilos brasileiros cineclubistas nas décadas de sessenta e setenta, ao contrário dos filmes de outros filmes da Primavera de Praga. É só uma hipótese, que fique bem claro. O filme passa ao largo de questões políticas da época, privilegiando o erotismo em uma narrativa experimental. A trama é ambientada em uma realidade contemporânea, pois há uma cidade moderna e urbana, mas os personagens se movem em uma região rural, primitiva ,quase mágica e, obviamente, irreal já naquela época. Baseado em um romance clássico da literatura húngara do autor Lajos Zilahy, infelizmente ainda inédito em português, e levado ao cinema anteriormente nos anos 40, diz a wikipedia. As filmagens foram interrompidas pela invasão soviética em 1968 e só retomadas posteriormente na Suécia já em 1970. A estreia somente em 1971 nos EUA, sem repercussão. Uma história repleta de percalços que contribuiu muito para o seu olvido. Um detalhe curioso na produção: foi uma parceria tcheco-americana, fato incongruente. Isso explica provavelmente a presença no elenco de Paula Pritchett, playmate e modelo de vasta,fumegante e devastadora (sobram adjetivos) beleza, aqui em seu único papel principal. A Afrodite só participou de dois outros filmes, e mesmo assim como figurante.
Ela é a Anada, do título original Tcheco, uma mulher que surge das águas do Danúbio, qual uma sereia, misteriosa, e falando uma língua desconhecida. Yanos (Rade Markovic), um rude pescador a salva das águas e a leva para casa. A esposa, a bela e simples Zuska (Milena Dravic) a acolhe com simpatia. E o triângulo amoroso não demora a acontecer. Em linhas gerais é esta a trama. Mas o que fascina e encanta no filme é a desconstrução narrativa, sutil, que deixa margens à ambiguidade de toda a história narrada em flashback pelo pescador Yanos. Até onde vai a verdade? Não seria tudo uma patranha de bêbado contada numa roda de fogueira aos amigos camponeses? E quem era Adana? Zuska e ela teriam uma relação sáfica? Ana teria também um affair com o playboy local? E o filho do pescador, não seria ele que teria uma relação homossexual com este mesmo playboy? Poético, experimental ( mas nunca chato, que fique bem claro) em sua narrativa quase circular e absolutamente fascinante. Outro destaque fica com a excepcional trilha sonora de Zoenek Liska. Como eu disse no início da resenha: o filme está disponível no youtube, completo, com legendas em inglês.
Ela é a Anada, do título original Tcheco, uma mulher que surge das águas do Danúbio, qual uma sereia, misteriosa, e falando uma língua desconhecida. Yanos (Rade Markovic), um rude pescador a salva das águas e a leva para casa. A esposa, a bela e simples Zuska (Milena Dravic) a acolhe com simpatia. E o triângulo amoroso não demora a acontecer. Em linhas gerais é esta a trama. Mas o que fascina e encanta no filme é a desconstrução narrativa, sutil, que deixa margens à ambiguidade de toda a história narrada em flashback pelo pescador Yanos. Até onde vai a verdade? Não seria tudo uma patranha de bêbado contada numa roda de fogueira aos amigos camponeses? E quem era Adana? Zuska e ela teriam uma relação sáfica? Ana teria também um affair com o playboy local? E o filho do pescador, não seria ele que teria uma relação homossexual com este mesmo playboy? Poético, experimental ( mas nunca chato, que fique bem claro) em sua narrativa quase circular e absolutamente fascinante. Outro destaque fica com a excepcional trilha sonora de Zoenek Liska. Como eu disse no início da resenha: o filme está disponível no youtube, completo, com legendas em inglês.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
The Muthers - 1976
Ciro Santiago(falecido em 2008) foi um dos gigantes do cinema exploitation entre os anos 60 e 70. Filipino, trabalhou com Roger Corman e Jonathan Demme entre outros. Produziu 79 filmes e dirigiu 77. O homem tem importância capital em vários subgêneros da exploitation. O maior estúdio cinematográfico filipino foi fundado por ele e está em franca atividade. Vou repetir o que já escrevi aqui antes: a indústria cinematográfica da pequena ilha asiática, colonizada pelos espanhóis, foi uma das mais prósperas e originais da Ásia. Diante de tantos filmes que Ciro dirigiu a escolha deste para lembrar aqui no meu cantinho inóspito se deve ao fato de que foi o último que andei assistindo nessa semana, e além do mais me divertiu à beça. Na verdade é um bom crossover de diversos gêneros que praticou da exploitation, o que o torna um filme digno de nota. O elenco feminino tem um punhado de beldades blacks que atuaram e ainda atuam: Jeannie Bell ,uma das rainhas da Blaxploitation , estrelou o clássico “TNT Jackson”, também dirigido por Santiago; Rosanne Katon- outra estrela negra da exploitation, apareceu na Playboy; Trina Parks ,foi Bond Girl em os “Diamantes são eternos”, e salvo engano também posou nua na revista do tarado Heffner; a quarta estrela do elenco, Jayne Kennedy, também deixou sua marca pela beleza. A trama , como disse, é uma suma de alguns subgêneros que fizeram a exploitation nos anos 70.
Começa como um filme de piratas moderno: o barco pirata “Muthe”, liderado por duas mulheres, ataca e rouba um barco de turistas bobos que faziam uma orgia. A irmã de uma das piratas desaparece posteriormente e na busca por ela recebem a notícia de que a moça estaria em uma prisão feminina, que também era uma plantação de café. Então o filme vira um WIP típico: um monte de mulheres maltratadas em uma prisão em plena selva, e o comandante sádico, aqui no caso, um bissexual enrustido. Vem então a inevitável fuga pela “jungle”, com os soldados no encalço das moças que escaparam, lutas de kung-fu, tiroteios e explosões. Uma trama movimentada e cheia de reviravoltas até o fim. A trilha groovy garante o clima blaxploitation . Para os que ficaram curiosos a dica é que existe o filme completo no youtube, sem legendas infelizmente. A chance desse filme sair em DVD por aqui algum dia é ,digamos assim, zero. O que no final das contas não tem nenhuma importância, talvez.
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