Este filme talvez seja outra (mais uma) desculpa – sempre esfarrapada - para lembrar uma das rainhas do filme B, talvez a maior de todas, dos anos 90. Maria Ford, que está na casa dos 50 agora, e ainda em atividade na TV, ganhou lugar cativo nos fãs com uma série de filmes baratos, rápidos, geralmente de ação, erótico, terror, ou ficção científica. Generosamente sempre fez questão de mostrar os atributos quando assim exigia o roteiro. Outro detalhe: ela entende mesmo de artes marciais e não dubla suas cenas, além de ser excelente dançarina( foi stripper em Las Vegas). Boa parte dessas produções Bs ,onde atuou ,foi realizada diretamente para o mercado de vídeo. Os anos dourados da grindhouse e exploitation já eram lenda nos anos noventa, mas o surgimento do VHS deu sangue ao filme B na Itália, EUA e outros países. E nesse contexto que se situa este filme que escolhi para lembrar essa lourinha gata brava . Ainda não vi todos os filmes que estrelou (devo ter uma dezena ou mais), mas pelo título resolvi arriscar e confesso que me diverti bastante. O filme como ele pode ser visto hoje pelo espectador surgiu de um contratempo sui-generis. Inicialmente seria estrelado por Charlie Spradling, que interpreta a irmã da personagem vivida por Maria Ford. Porém como ela não aceitou fazer uma cena em que tinha que lutar vestida só com uma calcinha os produtores decidiram “matar “ seu personagem, reescreveram o roteiro, e convocaram Maria Ford, que se tornou a heroína da história. A trama recicla dois sucessos da produtora de Corman : “Angelfist”, dirigido por Ciro H. Santiago, e “Blackbelt” do mesmo diretor desse filme, Charles Philip Moore. Na verdade é quase uma refilmagem desse último realizado dois anos antes. Como não curtir um filme em que a heroína é obrigada a enfrentar um bando de vilões vestida apenas com uma sexy calcinha vermelha? A cena, aliás, lembra a sensacional sequência do “pink” japonês “Sex and Fury” com Reiko Eike lutando completamente nua, sob a neve. Foi esta a sequência que motivou o quiproquó com Charlie Spradling, diga-se de passagem. Em mais de um sentido este filme revela influências do cinema oriental dos anos 70 japonês e de Hong Kong. Como nos gloriosos anos setenta as filmagens foram realizadas nas Filipinas, com produção do grande Ciro H.Santiago e Roger Corman. Maria Ford é Jo, uma policial, cuja irmã Britt - uma policial durona também – é brutalmente espancada e morta por um brutamonte. Claro que ela parte então no encalço de Bobby, o psicopata frio que matou a irmã, e que colecionava corpos de mulheres como quem colecionava filmes vagabundos: depois de fazer sexo com as incautas -vestidas de noivas- as matava com porradas e arrancava o dedo onde previamente colocara um anel de noivado. Muito singelo, mas considerando que ele era um mercenário ex-combatente do Vietnã, perfeitamente explicável. Para chegar até este simpático sujeito nossa heroína e musa mergulha no universo do showbusiness fuleiro, com cheiro de fracasso, quase da prostituição. No centro desse mundo tosco encontra Delilah(Jessica Mark) uma cantora bissexual que realiza um show strip lésbico & sadomasoquista, que já não atraia quase ninguém. Era sustentada por um gangster gordo e escroto cujos negócios incluíam tráfico de drogas, proxenetismo e outras coisitas mais, além de uma gravadora. Jo vai trabalhar como guarda-costas da artista. O psicopata nutria uma fixação doentia pela cantora e além de segui-la mandava-lhe presentinhos que incluíam dedos decepados. Mais romântico impossível. Outro momento estupendo acontece: ameaçada pelo vilão, que rapta a namorada e partner da cantora, Jo é obrigada a fazer um número de strip-tease. Nonsense e divertido. Ao que parece boa parte dos filmes de Maria Ford incluem cenas assim ou se passam nesse ambiente, pelo que constatei. Policial disfarçada de stripper, aliás, seria quase um sub-subgênero da exploitation tal a quantidade de filmes realizados nos anos 80 nessa linha. Mas o gênero do filme é mesmo “gostosa pelada com uma pistola fumegante”. E dentro dessa linha o filme é uma ótima e deliciosa farra. Observando o ano do filme constato que este é, provavelmente, o mais “novo” que resenhei aqui no blog considerando o ano em que foi realizado. Para os interessados existe ele no pirate bay: http://thepiratebay.se/torrent/6936728/Angel_of_Destruction_(1994)___Maria_Ford__
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Angel of Destruction- 1994
Este filme talvez seja outra (mais uma) desculpa – sempre esfarrapada - para lembrar uma das rainhas do filme B, talvez a maior de todas, dos anos 90. Maria Ford, que está na casa dos 50 agora, e ainda em atividade na TV, ganhou lugar cativo nos fãs com uma série de filmes baratos, rápidos, geralmente de ação, erótico, terror, ou ficção científica. Generosamente sempre fez questão de mostrar os atributos quando assim exigia o roteiro. Outro detalhe: ela entende mesmo de artes marciais e não dubla suas cenas, além de ser excelente dançarina( foi stripper em Las Vegas). Boa parte dessas produções Bs ,onde atuou ,foi realizada diretamente para o mercado de vídeo. Os anos dourados da grindhouse e exploitation já eram lenda nos anos noventa, mas o surgimento do VHS deu sangue ao filme B na Itália, EUA e outros países. E nesse contexto que se situa este filme que escolhi para lembrar essa lourinha gata brava . Ainda não vi todos os filmes que estrelou (devo ter uma dezena ou mais), mas pelo título resolvi arriscar e confesso que me diverti bastante. O filme como ele pode ser visto hoje pelo espectador surgiu de um contratempo sui-generis. Inicialmente seria estrelado por Charlie Spradling, que interpreta a irmã da personagem vivida por Maria Ford. Porém como ela não aceitou fazer uma cena em que tinha que lutar vestida só com uma calcinha os produtores decidiram “matar “ seu personagem, reescreveram o roteiro, e convocaram Maria Ford, que se tornou a heroína da história. A trama recicla dois sucessos da produtora de Corman : “Angelfist”, dirigido por Ciro H. Santiago, e “Blackbelt” do mesmo diretor desse filme, Charles Philip Moore. Na verdade é quase uma refilmagem desse último realizado dois anos antes. Como não curtir um filme em que a heroína é obrigada a enfrentar um bando de vilões vestida apenas com uma sexy calcinha vermelha? A cena, aliás, lembra a sensacional sequência do “pink” japonês “Sex and Fury” com Reiko Eike lutando completamente nua, sob a neve. Foi esta a sequência que motivou o quiproquó com Charlie Spradling, diga-se de passagem. Em mais de um sentido este filme revela influências do cinema oriental dos anos 70 japonês e de Hong Kong. Como nos gloriosos anos setenta as filmagens foram realizadas nas Filipinas, com produção do grande Ciro H.Santiago e Roger Corman. Maria Ford é Jo, uma policial, cuja irmã Britt - uma policial durona também – é brutalmente espancada e morta por um brutamonte. Claro que ela parte então no encalço de Bobby, o psicopata frio que matou a irmã, e que colecionava corpos de mulheres como quem colecionava filmes vagabundos: depois de fazer sexo com as incautas -vestidas de noivas- as matava com porradas e arrancava o dedo onde previamente colocara um anel de noivado. Muito singelo, mas considerando que ele era um mercenário ex-combatente do Vietnã, perfeitamente explicável. Para chegar até este simpático sujeito nossa heroína e musa mergulha no universo do showbusiness fuleiro, com cheiro de fracasso, quase da prostituição. No centro desse mundo tosco encontra Delilah(Jessica Mark) uma cantora bissexual que realiza um show strip lésbico & sadomasoquista, que já não atraia quase ninguém. Era sustentada por um gangster gordo e escroto cujos negócios incluíam tráfico de drogas, proxenetismo e outras coisitas mais, além de uma gravadora. Jo vai trabalhar como guarda-costas da artista. O psicopata nutria uma fixação doentia pela cantora e além de segui-la mandava-lhe presentinhos que incluíam dedos decepados. Mais romântico impossível. Outro momento estupendo acontece: ameaçada pelo vilão, que rapta a namorada e partner da cantora, Jo é obrigada a fazer um número de strip-tease. Nonsense e divertido. Ao que parece boa parte dos filmes de Maria Ford incluem cenas assim ou se passam nesse ambiente, pelo que constatei. Policial disfarçada de stripper, aliás, seria quase um sub-subgênero da exploitation tal a quantidade de filmes realizados nos anos 80 nessa linha. Mas o gênero do filme é mesmo “gostosa pelada com uma pistola fumegante”. E dentro dessa linha o filme é uma ótima e deliciosa farra. Observando o ano do filme constato que este é, provavelmente, o mais “novo” que resenhei aqui no blog considerando o ano em que foi realizado. Para os interessados existe ele no pirate bay: http://thepiratebay.se/torrent/6936728/Angel_of_Destruction_(1994)___Maria_Ford__
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
La Lupa Mannara - 1976
Um filme que filme assisti pela primeira vez em uma edição americana, quando morava nos EUA e veio num pacote com 50 dvds a preço irrisório. Por lá essas edições são comuns: geralmente são amontoados de filmes cujos direitos autorais venceram. Com preço tão baixo é natural que no bolo se salvem digamos assim a metade, e a qualidade é o item pior infelizmente, principalmente quando se trata de filmes europeus os anos 60 e 70.´É o caso desse dublado em inglês e cheio de cortes. Felizmente obtive a versão integral e pude apreciar mais uma vez a esplêndida Dagmar Lassander, além da pouco conhecida Annik Borel. E o bom é que tem no youtube. Corram enquanto ainda está lá. O acervo do canal está excepcional, apesar da qualidade não ser perfeita em alguns casos, mas no caso desse filme a cópia é de boa qualidade e parece que sem cortes. Metragem em filmes europeus dos anos 70 é um problema sério, controverso, e renderia artigos. O diretor é o subestimado e esquecido Rino Di Silvestre, um dos maravilhosos e mais obscuros “picaretas” da geração de ouro do eurotrash italiano. Infelizmente as oportunidades na direção foram poucas - somente 8 filmes-, o que não o impediu de deixar ótimos e absurdos filmes em gêneros variados. Este o único que obteve certa ressonância. O tema da licantropia foi bem explorado por espanhóis, eslavos, mexicanos e americanos com contribuições interessantes à lenda do bichão. Mas os italianos que tanto fizeram pelo horror e fantástico, a partir de Bava, Polselli e outros, deixaram o lobo de lado. “En Passant”, não recordo se os ingleses abordaram também o tema. O título da versão americana tenta enquadrá-lo na licantropia. Mas o fato é que o filme vai além (ou aquém, dependendo do ponto de vista) e o tema aparece subjacente. A heroína, a mulher loba, do título é a francesa Annik Borel, de carreira efêmera no cinema europeu(10 filmes no total). O diretor declarou que só a escolheu para o papel pelas feições que lembravam uma loba. Uma bela mulher, e que se tivesse encontrado um Jess Franco teria alcançado maior destaque na galeria das divas do exploitation. Mas e o filme, é ou não é de lobisomem? Bem, o início, após uma abertura sensacional com uma mulher dançando nua em volta de uma fogueira, parece que vai enveredar por mais um terror gótico de época, que fez glória do cinema italiano. Surgem então os camponeses, aprisionam a mulher lobo e a mandam para a fogueira. Os tempos não eram fáceis para quem escolhia meios alternativos de vida. Salto para a idade contemporânea e encontramos Daniele, descendente da mulher-loba, riquíssima, morando com o pai em um castelo no campo. A irmã, interpretada por Dagmar Lassander, aparece para a uma vista em companhia do marido, e então o espectador começa a se dar conta que a moça não regulava muito bem e apresentava sérios problemas de sexualidade. Para os psicanalistas, a definição seria uma histérica. Estuprada aos 15 ,tomara aversão ao sexo, sem, no entanto deixar de ter uma fascinação voyeurística pela coisa.Para complicar ela se julgava possuída pelo espírito da antepassada e não tarda em mostrar as garras, sendo o cunhado o primeiro objeto de consumo a ser estraçalhado numa noite de lua cheia. Segue-se uma internação, choques, camisa-de força- o trivial da psiquiatria cinematográfica- até a fuga, não sem antes cometer outra morte. E o inesperado acontece na trama e na vida da nossa, digamos, heroína: conhece um sujeito legal, dublê, e que morava, numa cidade fantasma, de fato um velho set de westerns spaghettis abandonado .E pela primeira vez ela se entrega e descobre o amor, a loba se despe da pele e se transforma numa mocinha boa, carinhosa e que ficava cuidando da casa enquanto o lover trabalhava. Mas felicidade será infelizmente estragada por um trio de malandros, que estupram Danielle e matam namorado. Não é spoiler ! Como se percebe pela sinopse está claro que Rino Di Silvestre colou uma série de gêneros exploitations em um só filme, sem muito nexo. O resultado não poderia deixar de ser desigual. E daí? Pergunto eu. Com todos os prós trata-se de uma legítima tosqueira fascinante e deliciosa. Para os fãs de Tarantino assinalo que o filme foi exibido no festival organizado pelo cineasta em 1996, na cidade de Austin, no Texas, em uma exibição surpresa à meia noite. O sucesso foi tanto, que a partir de então a sessão passou a ser apelidada de “sessão da mulher loba”.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Adrift aka Touha Zvaná Anada - 1970
Em meus passeios pelas cinematografias de países tidos como periféricos ou exóticos ainda não tinha me aventurado aqui no blog pelo cinema do leste europeu. Um pecado, tendo em vista que gosto demais dessa outra Europa: cinema polonês (Zulawski , Has e outros), húngaros, tchecos, romenos, russos e companhia ltda. Janos Kadar foi nome dos mais importantes do cinema do leste europeu. De origem húngara, realizou filmes na antiga Checoslováquia, um deles era exibido regularmente nos bons tempos dos cineclubes: “A Pequena Loja da Esquina”. Filme tido por muitos como o melhor de todos os tempos na cinematografia Tcheca. A invasão russa liquidando coma Primavera de Praga e o forçou a imigrar para os EUA. Boa parte dos seus filmes foram , na verdade, dirigidos em parceria com Elmer Klos. É o caso desse aqui que relembro, e do qual nunca tinha ouvido falar até pouco tempo. Aliás, encontrei poucas referências na rede sobre o filme. Mas curiosamente ele é facilmente encontrado(ainda) no youtube, em cópia legendada em inglês. E que tudo indica a única. Pelo visto o filme não se popularizou ao contrário de outros exemplares gerados na new wave checa nos anos 60, que revelou Milos Forman, entre outros nomes. Qual a razão? Creio que é um filme que não se enquadra no modelinho pseudo-social que era apreciado pelos cinéfilos brasileiros cineclubistas nas décadas de sessenta e setenta, ao contrário dos filmes de outros filmes da Primavera de Praga. É só uma hipótese, que fique bem claro. O filme passa ao largo de questões políticas da época, privilegiando o erotismo em uma narrativa experimental. A trama é ambientada em uma realidade contemporânea, pois há uma cidade moderna e urbana, mas os personagens se movem em uma região rural, primitiva ,quase mágica e, obviamente, irreal já naquela época. Baseado em um romance clássico da literatura húngara do autor Lajos Zilahy, infelizmente ainda inédito em português, e levado ao cinema anteriormente nos anos 40, diz a wikipedia. As filmagens foram interrompidas pela invasão soviética em 1968 e só retomadas posteriormente na Suécia já em 1970. A estreia somente em 1971 nos EUA, sem repercussão. Uma história repleta de percalços que contribuiu muito para o seu olvido. Um detalhe curioso na produção: foi uma parceria tcheco-americana, fato incongruente. Isso explica provavelmente a presença no elenco de Paula Pritchett, playmate e modelo de vasta,fumegante e devastadora (sobram adjetivos) beleza, aqui em seu único papel principal. A Afrodite só participou de dois outros filmes, e mesmo assim como figurante.
Ela é a Anada, do título original Tcheco, uma mulher que surge das águas do Danúbio, qual uma sereia, misteriosa, e falando uma língua desconhecida. Yanos (Rade Markovic), um rude pescador a salva das águas e a leva para casa. A esposa, a bela e simples Zuska (Milena Dravic) a acolhe com simpatia. E o triângulo amoroso não demora a acontecer. Em linhas gerais é esta a trama. Mas o que fascina e encanta no filme é a desconstrução narrativa, sutil, que deixa margens à ambiguidade de toda a história narrada em flashback pelo pescador Yanos. Até onde vai a verdade? Não seria tudo uma patranha de bêbado contada numa roda de fogueira aos amigos camponeses? E quem era Adana? Zuska e ela teriam uma relação sáfica? Ana teria também um affair com o playboy local? E o filho do pescador, não seria ele que teria uma relação homossexual com este mesmo playboy? Poético, experimental ( mas nunca chato, que fique bem claro) em sua narrativa quase circular e absolutamente fascinante. Outro destaque fica com a excepcional trilha sonora de Zoenek Liska. Como eu disse no início da resenha: o filme está disponível no youtube, completo, com legendas em inglês.
Ela é a Anada, do título original Tcheco, uma mulher que surge das águas do Danúbio, qual uma sereia, misteriosa, e falando uma língua desconhecida. Yanos (Rade Markovic), um rude pescador a salva das águas e a leva para casa. A esposa, a bela e simples Zuska (Milena Dravic) a acolhe com simpatia. E o triângulo amoroso não demora a acontecer. Em linhas gerais é esta a trama. Mas o que fascina e encanta no filme é a desconstrução narrativa, sutil, que deixa margens à ambiguidade de toda a história narrada em flashback pelo pescador Yanos. Até onde vai a verdade? Não seria tudo uma patranha de bêbado contada numa roda de fogueira aos amigos camponeses? E quem era Adana? Zuska e ela teriam uma relação sáfica? Ana teria também um affair com o playboy local? E o filho do pescador, não seria ele que teria uma relação homossexual com este mesmo playboy? Poético, experimental ( mas nunca chato, que fique bem claro) em sua narrativa quase circular e absolutamente fascinante. Outro destaque fica com a excepcional trilha sonora de Zoenek Liska. Como eu disse no início da resenha: o filme está disponível no youtube, completo, com legendas em inglês.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
The Muthers - 1976
Ciro Santiago(falecido em 2008) foi um dos gigantes do cinema exploitation entre os anos 60 e 70. Filipino, trabalhou com Roger Corman e Jonathan Demme entre outros. Produziu 79 filmes e dirigiu 77. O homem tem importância capital em vários subgêneros da exploitation. O maior estúdio cinematográfico filipino foi fundado por ele e está em franca atividade. Vou repetir o que já escrevi aqui antes: a indústria cinematográfica da pequena ilha asiática, colonizada pelos espanhóis, foi uma das mais prósperas e originais da Ásia. Diante de tantos filmes que Ciro dirigiu a escolha deste para lembrar aqui no meu cantinho inóspito se deve ao fato de que foi o último que andei assistindo nessa semana, e além do mais me divertiu à beça. Na verdade é um bom crossover de diversos gêneros que praticou da exploitation, o que o torna um filme digno de nota. O elenco feminino tem um punhado de beldades blacks que atuaram e ainda atuam: Jeannie Bell ,uma das rainhas da Blaxploitation , estrelou o clássico “TNT Jackson”, também dirigido por Santiago; Rosanne Katon- outra estrela negra da exploitation, apareceu na Playboy; Trina Parks ,foi Bond Girl em os “Diamantes são eternos”, e salvo engano também posou nua na revista do tarado Heffner; a quarta estrela do elenco, Jayne Kennedy, também deixou sua marca pela beleza. A trama , como disse, é uma suma de alguns subgêneros que fizeram a exploitation nos anos 70.
Começa como um filme de piratas moderno: o barco pirata “Muthe”, liderado por duas mulheres, ataca e rouba um barco de turistas bobos que faziam uma orgia. A irmã de uma das piratas desaparece posteriormente e na busca por ela recebem a notícia de que a moça estaria em uma prisão feminina, que também era uma plantação de café. Então o filme vira um WIP típico: um monte de mulheres maltratadas em uma prisão em plena selva, e o comandante sádico, aqui no caso, um bissexual enrustido. Vem então a inevitável fuga pela “jungle”, com os soldados no encalço das moças que escaparam, lutas de kung-fu, tiroteios e explosões. Uma trama movimentada e cheia de reviravoltas até o fim. A trilha groovy garante o clima blaxploitation . Para os que ficaram curiosos a dica é que existe o filme completo no youtube, sem legendas infelizmente. A chance desse filme sair em DVD por aqui algum dia é ,digamos assim, zero. O que no final das contas não tem nenhuma importância, talvez.
domingo, 20 de janeiro de 2013
El Asesino de Muñecas - 1975
“Épater la bourgeoise”, velho lema francês que durante muito tempo fez sentido. Os poetas decadentistas do séc. XIX o tinham como profissão de fé. Espantar, assustar e impressionar os burgueses sempre. Os movimentos de vanguarda do início do séc. XX - surrealistas e dadaístas -seguiram com a bandeira. Neste início de séc.XXI nada mais causa espanto e a burguesia é só uma lenda urbana. No nosso imergente país - que muitos acham que é emergente - temos a classe C com seus funks , imprecações e urros pentecostais e corrida aos shoppings para adquirir o último gadget nos fins de semana. Tergiverso em demasia. Estamos a falar de um filme espanhol dos anos 70. O filme que Lúcifer teria produzido caso ele se aventurasse pelo cinema; dos mais afins, que tive oportunidade de ver, do espírito de Isidore Ducasse, o Conde de Lautreamont. O filme surrealista por excelência. Bem dentro do espírito espanhol, é verdade. As obras de Almodóvar e Bigas Luna certamente devem algo a este filme maldito, execrado e amado pelos “happy few”. Quando colecionava e devorava HQs europeias me impressionavam os autores espanhóis pelo humor cáustico e iconoclastia. É curioso observar que muitos cineastas ibéricos foram roteiristas de tebeos (os quadrinhos espanhóis), casos do citado Almodóvar e de Amando de Ossorio, entre outros. Miguel Madrid rodou somente três filmes. Este que relembro foi o segundo e o mais significativo. Não assisti ainda aos outros filmes que dirigiu, estão aguardando na longa fila. Ele foi roteirista de um filme que comentei aqui no blog há algum tempo: “As Amantes del diablo”. O próprio Miguel (que assinou o filme com o pseudônimo de Miguel Skaife) aparece no início anunciando a intenção da obra: um retrato de um psicopata, vítima da dupla personalidade. Paul (David Rocha) é um jovem estudante de medicina: péssimo aluno, expulso da escola (“tremendo desse jeito você será apenas um açougueiro”, diz o professor profeticamente ). Ironicamente tem aversão ao sangue. Os pais são jardineiros de um parque privado. Neste espaço bucólico, frequentado por casais de namorados e hippies, Paul exercita o assassinato como uma das belas artes, usando uma máscara de boneca e peruca (uma óbvia influência do giallo italiano). A proprietária do parque é a vistosa condessa Olívia, uma ninfomaníaca - interpretada por uma das rainhas do eurotrash dos anos setenta, Helga Liné - que ao conhecer o efebo convida-o para dormir em seu castelo e tenta seduzi-lo, sem sucesso. Paul não tinha, digamos assim, um interesse especial por mulheres. A mãe o criara como uma menina, obrigando-o a brincar com as bonecas da irmã morta antes de nascer. Além desse perfil andrógino a amizade com um garotinho chato que sempre brincava no parque possuía claros sinais de pedofilia. Outras perversões podem ser encontradas neste coquetel bizarro de insanidade como necrofilia e estatuofilia( tara por manequins) além da já citada pedofilia. Mas ocorre um encontro inesperado: conhece Audrey (Inma de Santis), a doce filha da condessa. A atriz Inma de Santis tinha menos de quinze anos de idade quando atuou neste filme rodado em 1973, e só lançado em 1975, obviamente sem sucesso algum. Interpretação histriônica e afetada de David Rocha - que depois chegaria a atuar com Luís Buñuel em “Esse Obscuro Objeto de Desejo”- beirando o paroxismo.
Obra desigual, excêntrica caótica e das mais delirantes e dementes da história do cinema ibérico. Daí o seu fascínio e sedução. Para driblar a censura franquista o diretor usou uma tática comum aos cineastas espanhóis da época: a ação se passava em um país estrangeiro, aqui no caso na cidade francesa de Montpellier. O filme foi rodado, no entanto, em Barcelona e Sitges. Falando nesta última localidade duas curiosidades: lá se realiza um excelente festival de cinema fantástico, e o fundador deste faz uma ponta no filme.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Pigs - 1972
Os anos 70 foram o ápice do cinema americano alternativo e B. Várias produtoras independentes já disputavam o imenso mercado exibidor que as majors desprezavam (drive-ins, grindhouses e cinemas de pequenas cidades) desde a década de 50. O resultado foram obras criativas, dementes, realizadas por diretores malucos e originais e que acabariam por influenciar o mainstream nas décadas seguintes. Marc Lawrence tem seu nome assegurado na história do cinema enquanto ator, e sempre como coadjuvante, desses que deixam impressão marcante mesmo que apareçam apenas em algumas cenas. Carreira incrivelmente longeva: atuou desde os anos 30 e chegou a trabalhar em “Um Drink no Inferno” de Robert Rodriguez(e produção de Tarantino) e viria a falecer em 2005. Para os cultores do filme B ele deixou dois filmes como diretor: o primeiro, realizado ainda na década de 60, mais precisamente em 1965, “Nightmare in the Sun”, um thriller com toques noir, estrelado por uma jovem Úrsula Andress; o segundo filme, já na década de 70, é este que relembro agora. Produção atribulada desde o início, pois o orçamento era inexistente. Reza a lenda que o filme foi realizado por Marc para servir de cartão de visita para a filha atriz Toni Lawrence , a estrela do filme. Fracasso de público quando lançado com o título original ”Daddy’s Deadly Darling” (recebeu ainda outros títulos) e rebatizado com o título atual, já em 1975, numa tentativa dos produtores de aproveitar a onda de filmes com animais assassinos deflagrada por “Jaws’ de Spielberg. Não adiantou muito, mas felizmente o filme ganharia edições em VHS e, mais recentemente, em DVD pela Troma. Edições ”meia boca”, mas as única possíveis até o momento. Ressalte-se que o título original é mais adequado para o que realmente acontece. Temos Lynn ( Toni Lawrence) que mata o próprio pai, depois de ser violentada, e é levada para um hospital psiquiátrico, de onde escapa disfarçada de enfermeira. A fuga em um fusquinha azul a leva até um vilarejo perdido na Califórnia, daqueles que os Mcdonalds e os wallmarts ignoram, longe do século XX. Nossa heroína arranja emprego como garçonete no único restaurante local, uma espelunca. O proprietário: um fazendeiro de nome Zambrini (interpretado pelo próprio Marc Lawrence) e de macabra fama junto aos vizinhos que diziam que ele alimentava seus porcos com carne humana. Boato, que logo no início do filme vemos que procedia. O alimento grotesco era adquirido de furtos no cemitério ou eventuais assassinatos. A relação que se estabelece entre o velho e a garota só poderia ser ambígua, incomum. Melhor para os porcos que passam a receber mais alimentos especiais já que Lynn coloca as manguinhas para fora e começa a matar: primeiro, uma paquera, depois um médico da instituição que a descobrira e tentara leva-la de volta.
Falei da produção precária e o fato é que o visual tosco até que combina com a orgia insana e indigesta que Lawrence oferece ao espectador. O blog é também serviço de utilidade pública e deixo aqui duas dicas : a primeira, gastronômica, vai para os apreciadores de uma boa feijoada , e que sempre confirmem a procedência da carne oferecida( ou melhor, da ração dos suínos) ; a segunda vai para os que ficaram interessados e chegaram até o fim da crônica informando que o youtube tem o filme completo(infelizmente sem legendas). O link aqui: http://www.youtube.com/watch?v=b9iguLopECs
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
El Inquisidor - 1975
Mais um ano que finda. O ultimo post do ano é coincidentemente sobre um filme argentino. Quando morava nos EUA, por falta do que fazer nas horas de folga, resolvi fazer meu próprio blog . Inicialmente a ideia era um blog musical, meio à moda do fantástico e extinto Loronix, mas a falta de conhecimentos sobre o mecanismo de postar discos me fez desistir. Voltei então à outra ideia: um blog despretensioso sobre cinema. Nada de críticas, apenas resenhas e observações sobre filmes ignorados ou desprezados pela crítica “oficial”. Acabara de assistir ao filme “Sangre de Virgenes” de Emilio Vieiyra, um filme de vampiros feito na Argentina, e diante da inexistência de material sobre ele na época- na net- , pensei com meus botões da blusa que eu usava: taí o filme para dar a largada. Voltei para o Brasil após 3 anos e continuei tocando o blog apenas para meu divertimento. Bons blogs de cinema na linha que aprecio existem, excelentes e bem escritos, mas continuo com o meu às pressas, e irritando muitos por não colocar links para baixar os filmes. Para estes repito o que já escrevi: existem toneladas de blogues apenas de comentários e acho ótimo quando leio uma resenha sobre um filme que não conhecia e esta me aguça a curiosidade. O trabalho de caçar o filme é um prazer e acho que o eventual e improvável leitor deveria praticar este esporte também. Mas deixemos de lorota. Relembrando então outro filme argentino. Na verdade uma coprodução peruana- argentina. Diretor Bernardo Arias, peruano, e de longa carreira como assistente de direção no país inca. Elenco dividido entre astros dos dois países. Confesso que não sei nada sobre o cinema peruano. Pelas pesquisas que realizei constato que filmes de gênero praticamente inexistiram por lá, como de resto em outros países da América latina. Os argentinos tiveram alguma coisa com o gênio louco Emilio Vieyra; no Brasil tivemos esparsas e interessantes tentativas para além do monstro Jose Mojica, nome este de ressonância universal hoje entre os cultores do filme B e extremo em todo o mundo. Este filme ainda espera pelo justo reconhecimento. A carreira dele foi atribulada e ganhou reputação de maldita. Só foi liberado pela censura na Argentina em 1984, e foi exibido pela primeira vez dois anos depois. A recepção foi a pior possível. O crítico do ”La Nacíon” o classificou como uma merda. Os produtores para tentar angariar o público mudaram o título para “El Fuego del Pecado” sugerindo uma película erótica, piorando ainda mais.
De qualquer maneira ganharia uma edição em VHS, o que o salvou do limbo. As cópias existentes tem origem dessa edição. Boa caçada, amigos( no emule ele existe). Não se trata de uma obra-prima do terror, mas é suficientemente interessante para merecer um lugar de destaque na história do cinema de gênero na América latina. A primeira parte do filme parece mais um bizarro programa de turismo sobre os lugares mais belos de Lima. Enquanto rola este programa mulheres vão sendo mortas de maneira horrível: queimadas vidas, depois de serem torturadas. Os responsáveis pelas mortes uma seita que se julgava a reencarnação do santo Ofício e caçava bruxas. Comandados por uma psiquiatra vingativa auxiliada por um ex-paciente psicopata e três ajudantes. Depois do início meio confuso a narrativa se concentra em um trio de guapas modelos argentinas passeando em Lima e a inevitável investigação policial. A seita comete um erro mortal e rapta as modelos. Paro aqui a sinopse, para não estragar o final, que é bem divertido e surreal. Um filme desequilibrado, mas singular e brutal. No bom elenco a venerável diva do cinema argentino Olga Zubarry, fazendo uma ponta, e a linda Elena Sedova, atriz argentina que sumiu na poeira do tempo( abandonou a carreira em 1987) que oferece as doses necessárias de “sleaze” e erotismo. As cenas de tortura são violentas: com certeza assustaram o Censor do regime, que deve ter imaginado que os militares não gostariam de se reconhecerem nelas.
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