quarta-feira, 21 de março de 2012

La Fiancée du Pirate - 1969

Nelly Kaplan uma cineasta de carreira única. Nascida na Argentina de uma família de judeus russos, emigrou para a França .Foi amante de Abel Gance, que a introduziu no cinema. Com o diretor de " Napoléon" trabalhou em produção, assistente de direção e como atriz. Somente nos anos 60, pelas mãos do produtor Claude Makovski teria oportunidade de dirigir o primeiro longa-metragem, objeto da resenha de agora. Antes da carreira no cinema já tinha reputação no mundo da literatura com uma série de poemas e novelas, sempre de cunho erótico que haviam chocado. Tiveram, obviamente problemas com a censura. Mais do que Influenciada pelo surrealismo, pode-se dizer que ela foi dos últimos epígonos do movimento. Foi, por exemplo, amiga - amante? -de André Breton, fundador do movimento, que conheceu na década de 50 em uma exposição. Em 1996 recebeu homenagens da cultura francesa oficial pelo conjunto da obra. Irônico, dado o caráter quase secreto de boa parte dela. É provável que o filme aqui, seja seu trabalho mais divulgado no fim das contas. Ainda assim obra de parca repercussão junto à crítica, dado sua singularidade na história do cinema francês dos anos 60. A mais próxima analogia seria, para efeito de comparação, com os filmes da fase francesa de Luís Buñuel, de quem compartilha os ideais estéticos surrealistas. E ao contrário - em outra ironia - de obras dos pares da nouvelle-vague que soam em boa parte datadas vistas agora, não vi sinais de envelhecimento nessa garrida e safada noiva do pirata brechtiana. Acredito mesmo que o filme continue a guardar sua energia para incomodar e fazer o espectador remexer o rabo no conforto da poltrona. Definitivamente longe de ser um filme de shopping : corre-se o risco de engasgar com a pipoca, para dizer o mínimo.
Bernadette Lafont, que brilharia em “La Mamain et la Putain” de outro maldito, Jean Eustache, aqui resplandecia como Marie, uma jovem camponesa filha de uma cigana e empregada em uma fazenda. Um “quê “ de Celestine, a personagem de Jeanne Moreau, no clássico de Buñuel “Journal D’une Femme de Chambre”- também filmado também por Renoir. A patroa lésbica abusava sexualmente dela, sem contar o empregado meio pamonha. Habitava uma cabana no bosque na companhia de um bode negro. Uma figura do século 19: nada de luz, água encanada, telefone ou conforto. A mãe tinha fama de bruxa e morre em um acidente mal explicado. A tragédia tira a jovem cigana da pasmaceira zona de conforto em que vivia. E decide, digamos assim, partir para a guerra contra o povo da cidadezinha próxima. Para isso a arma mais velha do mundo: o sexo. Torna-se uma puta – cobrando 30 francos de todos os homens locais ou de passagem. Só transou de graça com um imigrante que trabalhava no campo, e o fez diante de alguns homens da aldeia. À medida que enriquece vai transformando a cabana miserável em que vivia em um local absurdo, surreal, atulhado de objetos: discos, telefone, roupas, relógios, e outros mais. E sempre fazendo de gato-e-sapato todos os homens da cidade. Só demonstra algum afeto para com um exibidor de filmes itinerante que sempre passava pela cidade. Homenagem ao cinema? Hipocrisia, carolice, estreiteza mental, racismo, mediocridade, estupidez: contra um universo sufocante como esse só mesmo humor negro, impertinência, deboche, irreverência surrealista explodindo e arruinando tudo, corroendo. Humilhados e ofendidos entoando o seu canto. A diretora definiu seu filme como a história de uma bruxa dos tempos modernos que não foi queimada na fogueira pelas pessoas, mas, ao invés disso, ela é quem as queimou. Alusões brechtianas: o título do filme se refere a uma canção de Brecht extraída da “Ópera dos três Vinténs” e a canção cantada ao longo do filme, pela cantora Bárbara, também foi extraída dessa mesma peça. O nome da cidade fictício de Tellier é uma citação ao conto de Maupassant, que, aliás, trata de um grupo de putas. O diretor Louis Malle faz uma pequena ponta.

3 comentários:

Bruna Dutra disse...

É isso que to procurando!!!! Quero ver sim!!!

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
ecos
de
la
tarde
callada
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


COMPARTIENDO ILUSION
FERNANDO

CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...




ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

José
Ramón...

fernando fonseca disse...

gracias pela poesia...muy bela!